01/02/07

VERSOS
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À Poesia

Ó boa lembrança em que me esqueço da dor
Insónia feliz na tortura em que adormeço
Quando tudo se foi és seguro regresso
Aonde o ser vencido me faz vencedor

Liberta voz onde a opressão desemboca
No amargo silêncio és meiga canção
No feroz duvidar mansa revelação
De que a vida é magia e o sonho se toca

És mar de água doce na deriva sem norte
Bússola e leme na maré que se agita
Farol do rumo certo na rota perdida

És enfim o sentido da diferente sorte
E na força de calar o que em ti se grita
Sucumbir é só dobrar o cabo da vida






Morre-me no silêncio esta canção
Resolve-se-me no ar este abraço
Esvai-se-me fugaz este cansaço
Perde-se-me este sorriso no chão

Cingia em tal furor ainda agora
No ingénuo imaginário deste peito
Um êxtase afinal de tanto feito
Que em nada se me fez esta demora

Prostrado aquele riso que inventei
Fui-me ou nasço do nada que ficou?
Já tão pouco interessa se o sei!

Nada-muda a balada que entoei
Que importa ser vazio o que me dou
Se a ele já inteiro me entreguei?




Saudade

Saudade não é dor é retempero
É dom de se guardar o que se foi
É força do que a vida nos corrói
É seguro alcançar no desespero

É sem ter mais somar e dar igual
É o multiplicar na subtracção
É resto da perfeita divisão
Falha infalível na prova real

É gerúndio no modo conjuntivo
É futuro no presente imperfeito
É o infinito ser imperativo

É calor na invernia furtivo
É rio seco em transbordo do leito
É pelas nuvens vadiar o cativo




Tempo

Prazo da vida vertigem da morte
Marcha intocável que a tudo entorpece
Vórtice em que a matéria se esvanece
Paradoxo de o destino ser sorte

Se és de amar mal chegando já te vais
Passas no momento paras na hora
Fazes-te instante espera e demora
E na saudade és sempre o nunca mais

Pressa do fim no vagar do começo
Tarde és avanço e cedo regresso
Ao nada em que culminas por sucesso

Pudesse a tua fúria ensandecer
Esta lúcida impotência de me ver
A ter-te horror só por já te não ter




Tudo

És na noite agitada o suave adormecer
No amanhecer abúlico és nova esperança
No dia tormentoso trazes a bonança
Na calma do regresso és o que faz correr

És corpo fresco no calor da excitação
Espírito estimulante que faz descansar
Real em pleno sonho depois do acordar
Imaginário além da imaginação

Na escaldante dor que o coração arrefece
És fresco-morno, fundente gelo que aquece
Memória do sentir que toda a dor se esquece

Coerência na contradição é o que enfim
Faz esta saudade de quem está sempre em mim
Meta certa à partida, princípio no fim




Sentir

Quero tanto saber como sentir!
É-me urgente sentir que o saber
Dá sentido ao humano padecer
De quem quer o insensível intuir

Fruí com ligeireza o sentimento
Tive sonhos, quimeras – tive o mundo
Elevei-me a um sentir mais profundo
E subir foi cair no sofrimento

Por sentir o saber fez-me sofrer
Sem sentir sofri por não perceber
Porque queria saber nada sentir

Sinto enfim que não sei já discernir
Se o que quero é sentir e compreender
Ou deixar de sentir sem o saber




Traição

É menos que calar – é não dizer
Pior que falar mal – é omitir
Mais duro que ser rude – é não sentir
No bem que se não faz o malfazer

É mascarar-se o feio de beleza
E o frígido passar por sensual
Amar que só a fingir é real
Nas manhas de encantar a quem despreza

É forjar armistício desleal
Abraçar p’ra apunhalar – simular
Que se quer vivo o que se faz morrer

É o traidor trair-se sem querer
Por querer tudo mas se contentar
Em ser sem ser – e ser nada afinal




Cidadão

Ó ousadia de ouvir e duvidar
(Oh! verdade transvertida em obsessão...)
Esvaneceste o real na ilusão
De urdir o sonho por sobre o despertar

Ó traidora tentação de desistir
Infectada mazela do desencanto
Faz-te grito de revolta em vez de pranto
Que se arrisca quem tolera a transigir

Haja forças para perder sem claudicar
E coragem para cair e prosseguir
E amor para morrer e renascer

A quem espera dê-se a ordem de avançar
Em quem teima cresçam ganas de insistir
Que lutar é o futuro a irromper!




Vallegrande

No corpo já sem armas que aqui jaz
Despojo de alma e sangue atormentados
Selado o grito e os sonhos calmados
Assombra-se inquieta a eterna paz

Foi fome de honra e sede de pão
O que esta alma inane alimentou
E soberba a cobardia que emboscou
Com tal raiva tão manso coração

Fresco alvor que em tão negra vida ardeu!
Desta matéria que fria fenece
Que halo doce e quente remanesce!

Oh! Certeza que dói mas enternece
De que se a Vida outra vida lhe desse
Havia de o achar no que o perdeu!




Pai

Não me perdoes, Pai – que ingrato sou!
Para remir a soberba em que me perco
Só por pecos garatujos me acerco
De quem por vida o verbo me doou

Tanto cantei o amor sem perceber
Que em todos os lugares e momentos
Jamais eu disse mais que os sentimentos
Que o teu sentir me deu a conhecer

Dos mundos, vidas, almas que me deste
Recusou-se a abrir mão esta memória
Temendo que ao usá-los os perdesse

Nada mais cantaria se tivesse
Engenho para plagiar a história
Que sem papel nem pena escreveste




Imperativo

Olho os teus olhos como quem se vê
Olhado como nunca lobrigou
Mas ver-me-ia sem ser o que sou
Se visse meu um olhar que meu não é

Veria em teu olhar tudo o que anseio
Ver, mas abro os olhos e resisto
Que é outro quem por teus olhos é visto
Como sem ver se vê meu devaneio

Talvez com esse olhar nunca lhe dês
Vontade da cegueira com que eu quis
Que visses este olhar que em mim não lês

Mas se é nos olhos dele que revês
O olhar claro que te faz feliz
Benditos sejam os olhos com que o vês




Saudades

Saudade...

Saudade nova
que não a sabia assim
Saudade antiga
que cresceu já tanto em mim

Saudade pequena
que há tão pouco aqui não estás
Saudade grande
que é imensa a dor que me traz

Saudade forte
que é mais que paixão e maior
Saudade meiga
que nunca é rude o amor

Saudade ruim
que é de não estares aqui
Saudade boa
porque é saudade de ti




Ilusão

Se nos papeis que te costumo escrever
Te habituaste a ouvir canções de alegria
É por bater teu coração igual ao meu
Mas o trovador jamais terei sido eu
É este Sol que do meu peito em cada dia
Se faz manhã que cruzou a noite a crescer

Mas se algum dia me faltar esse calor
Podes nos meus versos achar discretamente
Resto ou sinal de alguma lágrima vertida
Não a desprezes nem a tomes por perdida
Será da minha prece a Deus - e veemente
Para aliviar qualquer que seja a tua dor

Sem a chama que só o teu amor lhes dá
Hão-de falar-te ainda uns olhos baços
E eles te dirão que não é mais que ilusão
Estar morto o meu despedaçado coração...
Reune e guarda um a um os seus pedaços
Que ele por ti inteiro e sempre viverá




Negação

Dúvidas pra quê se nunca são desfeitas ?
Certezas quem as tem firmes e perfeitas ?

Confiança é renunciar a pensar
Suspeita é perder o dom de acreditar
Acção faz correr o risco de falhar
Omissão é ser capaz e abdicar
Entusiasmo faz ser-se impertinente
Indiferença é frieza indolente
Arrependimento tem quem quis ousar
Remorso é sentir que se deixou andar
Orgulho é não ter força pra ceder
Humildade é crer em si sem o dizer
Intolerância é falar e não ouvir
Transigência é querer e desistir
Arrogância vem da fraca convicção
Servilismo é nem procurar a razão

Egoísta querer é tudo ver frustrado
Generoso amar é nunca ser amado
Ódio nasce em quem só pra si quer o bem
Paixão afecta os que assim sentem também

Juventude é ser triunfo sem troféu
Velhice é ter pavor de chegar ao céu
Viver é puxar pelo fim sempre a correr
Morrer é perder o que se ousou fazer




Epitáfio

No corpo já sem homem que aqui jaz
Despojo de alma e sangue atormentados
Selado o sonho e os gritos calmados
Refulge – vã conquista! – a imensa paz

Foi honra, medo ou raiva da traição
O que esta alma inane alimentou?
Paixão ou desengano o que esmagou
Com tal força tão débil coração?

Fresco alvor que em tão negra vida ardeu!
Desta matéria que fria fenece
Que halo doce e quente remanesce!

Oh! Certeza que dói mas enternece
De que se a Vida outra vida lhe desse
Havia de o achar no que o perdeu!

22/01/07

CONTOS.
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João
(Vergonha Só)


Talvez ninguém de entre os vivos lhe soubesse outro nome ou sobrenome. Acudia por João, mas nem se pode dizer que fosse essa a sua graça, porque quem a ele se referisse só o conhecia por “Farrusco”. A alcunha, já de si inspirada num sombrio predicado animal, parecia ter algo que ver com a sorte do homem. Mas era herdado dos antepassados, como todos os alcunhas que chegaram aos dias de hoje, sobrevivendo à era em que a individualidade das pessoas ia para além dos assentos do registo civil.
Também a rua onde morava e tinha a sua oficina doméstica não era chamada pelo nome próprio. O Estado Novo baptizou-a de Rua da Esperança, mas nem os próprios moradores se desabituaram do velho topónimo: Rua dos Galegos. Na verdade, a viela que destoa no coração da cidade de hoje era, ainda há poucas décadas, uma rua estreita e sinuosamente definida por duas fiadas de casitas de cozinha térrea e quarto no sobrado, com traseiras em terras dadas ao baldio pelo alinhamento dos muros de dois ou três solares que faziam o termo da vila de então. De um lado e do outro da linha recta marcada em pedra a dois metros de altura havia oliveiras: bastas e alinhadas do lado de dentro dos quintais das mansões, fazendo linha de rectaguarda às laranjeiras mais à mão da criadagem e ao olfacto dos senhores; esparsas e descompassadas do lado de fora, aventadas à terra sobeja que se fez comunitário campo dos despejos dos residentes das casitas minúsculas – despejos das cozinhas e dos corpos que durante a noite desciam do sobrado a estrumar as árvores com o que milagrosamente restava das barrigas sempre incompletas. Eram refugiados da guerra de Espanha e vinham das aldeias pobres da Galiza. Para eles nasceu aquela rua que, indiferente à sua condição de quase escravos, ainda hoje parece querer lembrá-los.
Na Rua dos Galegos tinha João "Farrusco" a sua casa – se é que a terminologia contemporânea ainda consente que se chame morada àquelas quatro paredes de alvenaria de pedra, argamassada com lama e palha e coberta por ralos mosaicos de telha mourisca a adornar as enferrujadas chapas fixas com meia dúzia de pedregulhos que as guardavam dos vendavais, mas não das invernias. Na frontaria, apoiados aos graves cunhais de granito que ninguém sabe como ali foram parar, uma dúzia de blocos de cimento sem reboco testemunhava as últimas obras de luta contra o inverno e a ruína da velha parede.
Era baixa, pequena e cinzenta aquela casa. Mas não era triste o seu interior. Na cozinha, já então pavimentada a cimento afagado, havia uma mesa e a parte inferior de um aparador, que em tempos alguém rico deitara fora, e dois “mochos” comprados na feira. Tudo com bom aproveitamento do canto mais longe da porta e deixando livres uns bons dois terços do compartimento para a oficina do solitário sapateiro. O bastante para as ferramentas, as matérias-primas, o banco do artista e a arrumação do calçado dos fregueses. Estes não precisavam de passar a soleira da porta para entregarem os sapatos para conserto. E só por ali passavam para a encomenda, que João "Farrusco" fazia todas as entregas ao domicílio. A urgência acicatava-lhe a delicadeza – e o serviço de entrega ajudava a promover o negócio.
Durante muitos anos foi um brioso oficial da sua arte. Meias-solas atrás de meias-solas, uns tacões para pregar ou uns pares de botas para cardar – e a vida ia rolando com a dignidade de quem tinha tudo o que lhe bastava. A bata de sarja profusamente remendada ajudava a preservar a figura do homem desempenado, de cabelo e bigode fartos, por fim já grisalhos mas sempre impecavelmente penteados, que com roupa pobre mas limpa levava os pares de sapatos dos clientes cuidadosamente embrulhados em papel de jornal, como que para reforçar o brilho-negro que meticulosamente lhes dava. Daquele aspecto geral de limpeza só destoavam as mãos, consentidamente calosas e encardidas, que isso não deslustrava a sua arte, bem pelo contrário. Mas talvez por isso as estendesse timidamente, sempre que recebia a paga do seu serviço.
A vizinhança não lhe sabia de família – se é que algum dia a tinha tido. Dissera um dia para alguém que a mulher o tinha abandonado enquanto novo. Houve até quem suspeitasse vir daí o único lastro que da História se lhe atribuía: constava que em tempos tinha estado preso em terras de muito longe, por homicídio.
Da memória pública só se sabe que viveu solitário as primaveras e os invernos. Durante anos em que viveu como gente, mal o viam, fora do roteiro das casas dos fregueses e da taberna ao cair da noite. O resto do seu quotidiano parecia sagradamente guardado por dentro das quatro paredes da Rua dos Galegos, por detrás do olhar sóbrio e aparentemente imperturbável.
Foram anos, um punhado bom de anos, de prosperidade. À exacta dimensão das vistas de João “Farrusco”.
Mas vieram outros tempos. Tempos em que a globalização dos mercados e marketings e merchandisings e mil outras invenções de outro mundo tornaram o planeta demasiado pequeno para pátria de coexistência de chips e homens de alcunha; e a Natureza fraca para ao mesmo tempo alimentar a expansão dos técnicos de gestão macroeconómica e o estômago dos oficiais de arte própria.
“Meias-solas” depressa soou a neologismo astuciosamente criado pelas técnicas promocionais de organizados mega-shoppings, para atrair às “reparações na hora” uma massa de gente de bolsa já exaurida pela voragem do usar-e-deitar-fora. A própria palavra “sapateiro” surgiu como novíssima forma de embelezar logotipos de estilistas vendedores da moda chique – ironicamente guindada aos píncaros à custa do conceito de fabrico manual e personalizado...
Os modernos mecanismos sociais impuseram-se como um vórtice, em cujas profundezas foram engolidos a sovela, a graxa, os calos e o pão de João “Farrusco”. A Rua dos Galegos, cercada por modernos bairros de vivendas, foi afastada dos subúrbios em que proliferaram as grandes superfícies comerciais. A centralidade geográfica tornou a antiga viela muito distante dos locais em que se aparca o automóvel e numa só correria se arrebanha para os carrinhos-de-compras tudo o que os olhos do consumidor ditam como necessidade. Ir a pé a uma rua do interior da cidade passou a ser incómodo; dar essas passadas por umas simples meias-solas era muito dispendioso – demasiado oneroso.
A própria solidão de João “Farrusco” passou a ser muito diferente: agora era só dele, do íntimo do seu coração, cada vez mais vazio, como que por compressão do espaço que lhe sobrava no estômago. A mesma figura vestida de pobreza lavada e penteada passava agora os dias no banco da praça de taxis do centro da cidade. Por ali passava mais quem desse esmola – e a antiga taberna dos seus suspiros crepusculares deixara de ter espaço para ele, inserida que fôra nos objectivos da “revitalização do centro histórico” da cidade.
Desprovidas do encardido da graxa e das tintas, as mãos perderam a altivez e habituaram-se a estender-se aos transeuntes do roteiro do antigo sapateiro. Era apenas mais um entre muitos pares de mãos que na agitação da cidade perturbavam as consciências; na confusão de uma progressiva multidão de mendigos, dementes, desempregados excluídos pela idade, perdeu o nome em paga da libertação da alcunha. Mas continuava só, mais relegado à sua estranha intimidade. Talvez até sentisse nisso um resguardo da honra que tinha de reaprender a cada passagem dos olhares que, afanosos e distraídos, não chegavam a cruzar-se com a sua súplica.
No banco de pedra do parque automóvel, albergado pela majestática árvore secular cujas dimensões ao mesmo tempo o apoucavam, granjeou um dia a amizade de uma consciência. Ali estacionava diariamente o carro do advogado com escritório logo ao lado. Naquele dia quis o destino que o causídico demorasse a sair do automóvel uns quantos minutos – o suficiente para que João, na hesitação do “vou... não vou”, aproveitasse uma força do “vou” e se dirigisse a ele. Disse-lhe que tinha sido agredido, que queria queixar-se no Tribunal, que “o senhor doutor costuma ajudar os pobres” e que a indemnização que recebesse em juízo havia de dar ao menos para pagar os custos. A inesperada atenção do advogado deu-lhe ânimo para continuar.
– Ainda hoje não comi ... e a reforma só vem para a semana; se o senhor doutor me pudesse emprestar cem escudos, o mais tardar no dia 10 já lhos ia levar ao escritório... já não digo um cigarro, que nunca me faltou noutro tempo.
O homem voltou a abrir a porta do automóvel, debruçou-se sobre o porta-luvas e retirou o maço de cigarros de reserva.
– Fique com esse, que a mim só me faz mal; os cem escudos dá-mos quando tratarmos do processo.
Entrou no escritório com os olhos húmidos de revolta. Prometeu ao seu pensamento que deixaria de fumar – e é claro que nunca o cumpriu.
No dia seguinte, à mesma hora, João “Farrusco” não estava sentado no banco da praça. Estava do outro lado da árvore, a afastar-se, num gesto que não deixou dúvidas ao advogado: o pobre homem não queria abusar – nem da generosidade do benemérito, nem da exposição pública da sua própria miséria.
– Há-de passar lá pelo meu escritório, para tratarmos do seu assunto – disse-lhe o outro, logo a seguir aos bons dias que avançou com forçada displicência.
A resposta foi forte: com os olhos rasos de lágrimas, João disse apenas:
– A mãezinha do senhor doutor dá-me pão todos os dias.
O advogado respirou fundo, puxou da sobriedade que conseguiu e insistiu:
– Passe por lá, quando quiser; olhe que os seus direitos só lhos dão se nos mexermos – deu-lhe um aperto de mão, como se fosse natural despedir-se assim do fugaz encontro.
Nunca houve processo. Nem qualquer outro encontro na praça de taxis. O advogado estacionava ali o automóvel diariamente e a horas quase pendulares, mas não voltou a ver por ali o homem. Raramente entrava ou saía do parque sem deitar o olhar para o banco de pedra, mas a João "Farrusco" nunca mais o viu por lá. De vez em quando sobressaltava-o uma figura pelas redondezas, mas nem por uma vez conseguiu atalhar o rasto do vulto que se desvanecia.
Passaram pelo menos dois verões e dois invernos e mais o princípio de outro verão. Ia Agosto pela meada quando soou a notícia: “Sabe quem morreu?... O Farrusco”. E vinham os pormenores biográficos habituais: era um desgraçado, um bêbado, pedia dinheiro emprestado a toda a gente, era violento ou mal-criado quando lhe negavam um "empréstimo", etc.. E lastimava-se o desenlace, com a compaixão típica de fecho da notícia.
A Câmara Municipal tinha começado a expropriação das casas da Rua dos Galegos. A João “Farrusco” seria proporcionada habitação num dos prédios do único bairro social da cidade – mas os moradores ameaçavam resistir à instalação do antigo sapateiro, para defesa do sossego e da limpeza do lugar. A polémica não chegou a vias de facto: João “Farrusco” foi encontrado morto, já sem condição de dar incómodo ao hospital sequer. O odor pútrido e a aglomeração de varejeiras transbordaram pelas inúmeras fendas das paredes, alertaram a vizinhança e depressa chegaram às autoridades. Não foi ordenada autópsia.
O advogado recebeu a notícia em casa da mãe. Uma das visitas da doente deu sinal da indignação pública – o prior não queria fazer o funeral. Pelo relato da mensageira soube que o “Farrusco” passava os seus dias no banco de pedra da praça dos taxis; desde havia anos e até uma semana antes de ser encontrado a dar pasto às varejeiras.
A agência funerária forneceu dois acompanhantes ao padre. A Santa Casa da Misericórdia pagou o serviço.





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Fernando
(Consciência Só)


Nos anos sessenta os jovens estudantes regressavam às aulas, pelo dia 7 de Outubro, com um quê de saudade do convívio interrompido pelas férias e a principal curiosidade de contarem, como por compensação da falta daqueles que no Verão tinham ficado pelo caminho, os novos elementos da turma. No início do ano escolar chegavam sempre umas quantas caras novas, à parte os caloiros. Desses que chegavam a meio do ciclo, a maioria vinha dos seminários. Mais do que frustradas vocações eclesiásticas, era um ciclo que se lhes cumpria – o ingresso no seminário era, as mais das vezes, a única solução para os miúdos que saiam da escola com maior ambição do que acompanhar os pais na faina da lavoura ou fazerem-se aprendizes de mecânico. Muitos iniciavam-se lindamente no estudo do rosa rosae e das equações do 1º grau, mas poucos conseguiam levar a prática da liturgia católica mais longe do que a indisciplinada ou enfastiada presença física na obrigatória missa de cada alvorada. Mais cedo ou mais tarde era o moço que começava a ir mais frequentemente à terra em fins-de-semana de humor alternando entre a euforia do convívio com a garotada da idade a correr aos ninhos ou a fumar os primeiros cigarros furtivos e a tristeza confrangedora às refeições e ao serão com os pais. Por vezes aparecia um estado de revolta – se não mesmo de insurrecta ira – contra a clausura da semana de aulas, normalmente saído pelas portas da alma por onde entravam o rigor do catecismo e a severidade da reguada por qualquer coisa como o desacerto da declinação do adjectivo no género neutro. E então punham-se as questões à bonomia do pai resoluto, normalmente a seguir ao desencantado desvelo da mãe, mal disfarçado nas sucessivas reprimendas pela desconsideração do rapaz para com quem tanto se preocupava com o seu futuro. Se a deprimida saturação do seminário coexistia com o talento para as letras, a solução era fazer-se um sacrifício suplementar, empenharem-se umas terras ou umas horas do sono diário e mandar-se o rapaz para os estudos.
Foi este, mais coisa menos coisa, o destino de Fernando. Em anos, já ia nos quinze de idade e no quinto do seminário; nas ciências, mais longe que as paredes do claustro; no pensamento, mais alto que Deus. A ambição pelo saber e pelo viver contagiava os pais – e na hora de se rever o currículo escolar para se aquilatar das garantias de tão grave escolha a decisão acabou por ser linear e entusiástica: o rapaz deixaria de ser seminarista e passaria a ser estudante. No concelho não havia ensino oficial e o preço das propinas no colégio particular foi talvez subestimado, na hora do orgulho pela determinação das promessas do jovem.
A desistência do seminário a meio do ano, mais o acerto pela correspondência das disciplinas, obrigaram a que em Setembro se matriculasse no quarto ano. Com dezasseis anos de idade e uns dezoito de maturidade, Fernando tomou lugar numa turma marcada pelo contraste entre três ou quatro matulões mais relapsos na eficiência escolar e um grande grupo de meninos a rondarem os treze anitos, muitos dando contas certas na hora da correcção dos trabalhos de casa, uns poucos acumulando mais ou menos esse sucesso com o espevitado interesse pela vida para além dos livros. Foi com estes últimos, está visto, que a bonomia de carácter e a infinita curiosidade do tímido ex-seminarista melhor conviveram na adaptação. Nas aulas passou a ser um dos melhores e isso ainda mais o aproximou daqueles que se interessavam pelas letras. Fez dois amigos de mais vezes, um duo de vivos rapazes que nos intervalos se entretinha a partilhar a leitura do jornal que um adquirira como hábito em casa e as curiosidades que o outro sorvia nas Selecções do Reader’s Digest, cuja leitura herdara do irmão mais velho entretanto regressado da tropa. Passou a ficar dividido, quase hermeticamente, entre as discussões culturais que no café travava com estes dois e a complacência com as facécias para que os mais velhos o solicitavam, normalmente para colocarem em apuros algum professor mais novato. Brilhava, entre uns e os outros, pelo bom senso que a abundância de leituras e a escassez de liberdade lhe tinham aguçado no seminário. Esta dividida convivência, em lugar de o integrar mais facilmente entre todos, marcou o fosso entre a postura urbana dos colegas e a mundividência essencialmente rural de Fernando. Um dos traços dessa mundividência sobressaía quando se dirigia aos colegas: para pedir a atenção de qualquer deles, esquecia-lhe o nome e chamava-o por “amigo”. E Amigo foi a alcunha que lhe puseram e com que ficou para sempre.
O Amigo fez o resto do ensino secundário discreto entre todos, menos os dois parceiros de conversa que com ele privavam mais estreitamente – para estes tornou-se importante referência de uma juventude menos atenta à escola do que às causas. Os ideais comunistas assentaram nele de um modo pacífico, se bem que convicto e entusiástico. O traço mais vivo da sua personalidade passou a ser o desassombro com que se indignava com a estagnação dos costumes. O sobrolho franzido com que escutava os interlocutores nas discussões animadas – com ele eram sempre animadas – transmitiam a correcta imagem de um homem de convicções muito fundadas e firmes.
Nos finais do liceu foi-se-lhe perdendo o rasto. Ia a umas aulas, parava umas meias horas no café próximo do colégio sempre que por ali se discutiam a política ou as políticas, às segundas-feiras trocava o jornal do dia (que sempre trazia dobrado, por debaixo do braço) pelo semanário desportivo que gostava de ler na camioneta de carreira que o transportava a casa – e pouco mais parava pelas imediações do espaço escolar. Ajudava a família no trato das terras e encarregava-se das compras da rafia para os enxertos ou do arame para as latadas; e continuava meio envergonhado da sua diferente condição entre os colegas, de tal modo que depois de se aviar no mercado semanal tomava a rua das traseiras até à central de camionagem. Não esteve nas festas de finalistas – só não faltou à missa de Santo António que todos os anos assinalava o final do ano lectivo e servia para a despedida geral da malta antes de férias. Por alturas da Santa Luzia souberam que ele se tinha matriculado em Sociologia (o curso que sempre quisera) e isso ainda mais o afastou dos outros, pois que na época a sociologia só era ministrada na universidade jesuita, em Évora, e foi ele o único que não rumou a Lisboa ou Coimbra.
Andou por Évora até que estalou a Revolução – ninguém sabia com que sucesso curricular. Nas comemorações que se seguiram ao dia 25 de Abril apareceu nos comícios, sozinho e limitando-se a observador. Depois, deixaram de o ver pela Beira, de novo. Pelo Verão, passou pelo café das antigas tertúlias, leu paulatinamente o jornal até que os dois antigos colegas por ali passaram e não esperou mais para fazer as despedidas: ia para a União Soviética, com o propósito de estudar e trabalhar no seio de uma sociedade que acreditava mais propícia à sua felicidade e à sua realização como homem.
Na faculdade de Évora começara a escrever. Os temas das aulas, a bibliografia que as sebentas lhe abriam, a cumplicidade de um ou outro jovens assistentes mais abertos a ideias progressistas, a imensa curiosidade pela história do pensamento e algum inconformismo ante a timidez e o secretismo com que a bibliografia alternativa era relegada para as estantes mais recônditas da biblioteca – tudo contribuíu para que Fernando passasse da compilação da diversidade à reflexão sobre a diferença e, daí, à enunciação dos seus próprios raciocínios. Como todos, começou por achar que aquilo que escrevia só a ele e à intimidade do seu pensamento interessavam, mas teve necessidade de partilhar e discutir os escritos com quem lhos rebatesse. A relutância, a menosconsideração e, pior, que ambas, a indiferença dos docentes perante as suas teses espicassaram-no de princípio a aprofundar mais as suas premissas e levaram-no depois a desencantar-se com os académicos. Parecia-lhe que a história e as suas ciências irmãs eram demasiado sérias para serem contidas por tão duros diques da frieza intelectual. Sentiu-se apoucado primeiro, marginalizado depois e deslocado finalmente. No fundo da sua emoção, ainda sentiu que abandonar a faculdade seria uma forma de abanar as consciências que comodamente se tinham recusado a avaliar a sua obra. No dia de abalar, saíu sem mágoa e nem lhe fez falta anunciar a partida.
Foi discretamente também que rumou para as fronteiras da Eurásia. Os pais já se tinham habituado a tê-lo ausente, os amigos do tempo do liceu andavam por Lisboa e Coimbra, e de Évora não levava saudades. Fez a primeira viagem de avião e o facto de nunca ter ido ao estrangeiro ter-lhe-á causado aquele calafrio que ninguém consegue evitar nessas circunstâncias – mas, se o teve, viveu-o e guardou-o consigo mesmo. Saltar de repente para os confins do mundo não o assustou, tal era o entusiasmo com que esperava descobrir uma sociedade nova. E encontrou-a quando chegou, na solidão das observações que fazia vagueando pelas avenidas de Moscovo e nos oásis de companhia que se lhe ofereciam no curso de língua russa para estrangeiros. Aprendeu a servir-se da língua em pouco mais de três meses e essa facilidade foi o melhor augúrio da descoberta do eldorado que sentia estar a deparar-se-lhe. Mais do que a língua, aprendeu uma nova maneira de estudar e de conquistar conhecimentos – e fascinaram-no as novas vias da epistemologia, da ligação da teoria à vida e, até, da ciência pura. Viveu pelo menos um ano num sentimento dominante que não era só de realização e felicidade, era de plenitude.
Como tantas vezes acontece no caminho da descoberta, os sentimentos de Fernando pela diferente cultura que lhe tinha sido tão hospitaleira foram mudando: o frenesi inicial quebrou, o entusiasmo foi esmorecendo e a esperança de identificação com os ideais foi-se esfumando. Sem saber se por excesso ou por defeito, as próprias mudanças da linha mestra do pensamento político e social russo foram-lhe deixando as medidas por encher. Ainda estava por chegar a glasnost, mas já havia muita coisa em mutação nos sovietes – e o ambiente académico, sensível como sempre, reflectia os contrastes de opinião. A rigidez de uma e outra das facções da cultura russa deixou Fernando quase sempre deslocado: as suas opiniões passaram a ser do contra para muitos, para demasiados, se não para todos. Paradoxalmente, quando mais por lá se falava de liberdade e de pluralidade de expressão foi que ele começou a sentir-se mais isolado. Escreveu, escreveu muito e escreveu o melhor que o seu pensamento tinha alcançado, mas os seus leitores, mais ou menos obcecados com os polos da luta ideológica em que todos andavam envolvidos, não passavam das primeiras páginas dos escritos que ele ansiosamente lhes dava a ler. Pensou que porventura fosse problema da língua e, depois de hesitações e reflexões, decidiu regressar a Portugal.
Chegou à aldeia no princípio da primavera, a tempo de ajudar nas sementeiras. Vinha ávido de gozar a companhia dos pais, de encontrar velhos amigos com quem pudesse trocar opiniões, de escrever as ideias que queria arrumar. Tudo isso fez como lhe foi possível – e de tudo acabou por concluir que queria e devia voltar à escola. Inteirou-se do clima dos meios universitários e no verão foi a Lisboa matricular-se no curso de História.
A cidade universitária andava menos agitada do que lhe tinham noticiado, mas no curso dele reinava um ambiente que parecia agradar-lhe. O resto da esquerda que havia pela capital tinha na faculdade de letras uma expressão predominante e o debate era palavra de ordem constante. Mal tinha arrumado as roupas e os livros que levava, no quarto que encontrou vago num edifício velho e apinhado de hóspedes, lançou-se a caminho da associação académica para se inteirar da logística das disciplinas e para prospectar o ambiente. Ficou animado por conhecer colegas no primeiro dia, embora não tenha encontrado a disponibilidade para a tertúlia de que tinha necessidade quase visceral. Impacientou a espera da primeira aula, e achou natural um quê de insatisfação com que de lá saíu – seria por estar o ano ainda a começar.
Nos primeiros tempos de Lisboa, a solidão no quarto alugado foi algumas vezes de receio do desencanto, mas foi quase sempre tempo bem aproveitado. Reviu os vários volumes que tinha escrito na Rússia, compilou e organizou os escritos esparsos que lhe enchiam uma mala de roupa – e gostou do que releu. Foi nessa ocasião que se deu conta de que a sua obra escrita era mais do que uma resenha das abordagens da dialéctica da História pelos cultores do materialismo: continha, por sobre essa resenha (se assim podia chamar-se uma tão extensa e ordenada recolha) uma tese nova, como que o desenvolvimento do materialismo histórico adentro dos novos estádios da História. Pensou que podia ir mas longe do que apreender as grandes conquistas do pensamento contemporâneo, podia expor a sua própria palavra. Relendo os maços de apontamentos que tinha, revisitando de trás para a frente Engels, Lenine e Trotsky, mas também Lafargue, Bernstein e Rosa de Luxemburgo, e ainda Ricardo, Malthus, Keynes e o próprio Friedman, percebeu que a sua dilecta História o tinha levado à Sociologia e à Economia, recordou o estudo de Locke, Comte e Hegel, sorriu ao passar os olhos por uma lombada de Séneca – mas teve pela primeira vez a clara intuição de que os seus últimos escritos se ordenavam segundo uma nova lógica. Separou em cadernos, numa ordem nova, os apontamentos que começara em Moscovo. Releu cuidadosamente a nova colecção dos seus últimos escritos – e viu que podia subordiná-la a um título próprio e novo. O que ali se continha era algo que nenhum dos mestres tinha dito, mas que decorria mais que implicitamente de todos eles, numa linha de evolução que se afigurava natural mas carecia de ser continuada. Receou que o seu entusiasmo o deslumbrasse injustificadamente ou, pior, presunçosamente.
A interacção entre infraestrutura e superestrutura nas sociedades modernas passou a ser tema de todos os encontros que tinha, na associação académica, na cantina ou no autocarro. Mas foi, talvez por isso mesmo, também uma nova fonte de ansiedade, porque por debaixo do primeiro interesse de todos jazia quase sempre um resvalar para questões do quotidiano, e isso custava-lhe a aceitar. Não passou da equação das suas principais premissas, nem com colegas, nem com professores a quem chegava a solicitar audiências com o único propósito de abordar o tema, ainda antes de mostrar o suporte de papel em que o alicerçava. O esmorecimento pela falta de oportunidade de fazer um verdadeiro teste à seriedade dos seus estudos surgia-lhe apenas ocasionalmente, nos momentos de cansaço físico ou de falta de inspiração para rever mais uma vez os apontamentos. Mas saía desses momentos, em que lhe parecia que as suas ideias estavam destinadas a ser partilhadas apenas com o papel e consigo próprio, serenando-se a si mesmo com a certeza de que uma obra nunca está completa, sobretudo para quem tem uma vida inteira pela frente – afinal tinha então vinte e seis anos e, apesar de ter sido terceiroanista em duas escolas entre si distantes em mais de quatro mil quilómetros, era ainda um caloiro em Lisboa. Com maior ou menor pausa, voltava sempre ao trabalho com o mesmo entusiasmo e reescrevia cada folha em que introduzia alterações, com resistência maior do que a da pequena máquina de escrever que trouxera de Moscovo e que não durou mais do que esse primeiro ano em Portugal.
Suportou estoicamente os dois anos seguintes, entre as aulas, a Biblioteca Nacional e a solitária entrega à escrita. Tinha já assegurada a passagem para o quarto ano do curso quando, no início de Junho, um assistente propôs um trabalho de grupo para o qual, sem necessidade de forçar, as suas matérias poderiam ter cabimento. Fernando associou-se a dois colegas que mal conhecia e que bem sabia socorrerem-se dele com o principal propósito de o deixarem avançar na elaboração do trabalho. Não se importou do evidente desinteresse dos companheiros de missão – o importante era abrir uma porta para o professor examinar a sua obra. E assim foi. Foi recebido, em conjunto com os colegas de tarefa, para primeira discussão do trabalho. Mas ainda não tinha decorrido a primeira hora de debate e já o assistente lhe propunha um encontro a dois apenas. Marcaram-no para o dia seguinte e Fernando nunca mais soube se a presteza do agendamento resultara de insistência dele ou de entusiasmo do assistente. Soube, logo que se avistaram, que tinham sido ambas as coisas. O assistente disse-lhe abertamente que aquele estudo podia ser uma revolução no pensamento sociológico, e no final de uma tarde inteira de discussão ainda reforçou essa ideia. Era preciso publicar o trabalho e oferecia-se para lhe abrir os caminhos necessários.
A publicação não surgiu. Depois da conversa com o assistente, Fernando aprimorava mil e um detalhes no seu original e nisso passou a ocupar todos os longos serões. Negligenciava as matérias curriculares nas tardes em que se gastava pela Biblioteca Nacional, só intervaladas por uns cafés e de vez em quando uma sanduiche. Adiava nova entrevista com o assistente, apesar de a ansiar em cada passagem pela faculdade – e por vezes interrogava-se por que era que também ele prolongava o silêncio sobre o prometido contacto com o editor. Soube que esse contacto tinha sido feito, mas a notícia foi-lhe dada por um catedrático a quem entretanto a obra tinha sido dada a ler. Nasceu-lhe uma alma nova nesse dia, talvez pela confirmação de se terem iniciado os passos para a publicação, talvez antes pela firmeza com que o catedrático se associou à ideia de se levarem os seus escritos ao prelo. Mas o tempo foi passando e foi já depois do verão que o assistente, talvez incomodado por tão demorada espera, aproveitou um encontro no bar para se lamentar da falta de público leitor, que era certamente o que travava a editora. A ideia ficou-lhe relegada nesse dia.
No ano de finalista, o interesse pela escola não chegou ao fim do primeiro semestre. Pelo natal a consciência foi-lhe assaltada pelo galope da idade do pai. Achou que o mais importante para a investigação de toda a sua vida era dispor de tempo e solidão para rever as ideias assentes e desenvolver aquelas que podiam ser mais esclarecidas – e isso era-lhe fácil e até mais viável fazê-lo na casa de campo dos pais, onde para mais poderia ir dando um apoio, na lavoura e no resto. Só voltou a Lisboa para preparar o regresso à aldeia. Por meados de Janeiro já dava serventia a um amigo pedreiro, numa pequena obra de adaptação da saleta que a mãe, já demasiado míope para a costura, lhe cedeu.
Passou então os mais serenos dias da vida. Sem nunca perder o hábito de prolongar os serões, habituou-se à sesta que lhe quebrava o cansaço das longas manhãs com a motocultivadora ou a tesoura de podar. Passou a reservar os domingos para a ida à aldeia, acompanhando os pais à entrada da missa e dando dois dedos de conversa a quem encontrava no café do adro, onde recolhia os semanários que à tarde digeria mais demoradamente. Reviu a matemática do liceu e começou a dar explicações, com o propósito de ganhar algum dinheiro, que a amizade pelos conterrâneos nunca o deixou cobrar. De resto, mantinha o sagrado ritmo dos serões: escrevia e estudava, estudava e voltava a escrever. Nas idas ao mercado semanal da vila, gozava da companhia de um velho amigo, liberal de profissão, que devorava cada novo andamento do seu tratado sobre a interacção da infraestrutura e da superestrutura nas sociedades modernas, e fez dele confidente intelectual. Mandou reparar a velha motorizada que mantinha arrumada e recebeu com naturalidade o espanto admirador do amigo pela pureza com arraigava os seus valores de sempre.
O tratado foi tomando volume e ganhando volumes – quatro eram eles ao todo, quando, passados já mais de dez anos sobre o seu regresso à aldeia, decidiu que lhe tinha encontrado a forma definitiva. Emprestou-os ao amigo, que lhos reteve durante todo um verão e lhos devolveu acompanhados de uma disquete em que lhe tinha copiado ao computador as mais de novecentas páginas. Mas Fernando já não aceitou a oferta de associação para uma nova tentativa de publicação – entendia que quem tinha que ler a sua obra já a tinha lido. Agradeceu tudo, mas os seus sonhos literários tinham então como alvo outros géneros de escrita e, sobretudo, a leitura. Sentiu até estranho que o amigo lhe tivesse pedido autorização para dar o tratado a ler a outros.
Fernando nunca mais deixou a escrita, nem a agricultura. A motocicleta finou-se um dia, como todos os seres animados e inanimados, mas os transportes públicos tinham entretanto melhorado muito. No dia em que fez cinquenta anos, marcou um simbólico encontro com o amigo e pediu-lhe que destruísse a cópia informática do seu tratado. Mais ano menos ano chegaria um dia que seria o último para si – e deveria sê-lo também para os seus escritos.



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Madalena
(Coragem Só)



Na prisão, a confissão tanto pode ser o ponto final do cansaço do interrogatório do polícia, como o ponto de partida para a expiação partilhada com um companheiro – e em ambos os casos não chega a ser metade do alívio nem a ter metade da verdade. Tanto pode ser a cedência a uma pressão que se não consegue carregar por mais tempo, como a exibição de uma revolta que se não conseguiu assumir conscientemente – e em qualquer dessas situações nasce de uma força maior que a coragem e termina numa transparência maior que a realidade. Lá dentro, a confissão é quase sempre o ponto de confluência de um diálogo ilusório e perigoso, em que de um lado é a ansiedade que corre pela rendição alheia e do outro é a angústia que hesita entre a esperança do indulto e o desespero da deposição. É pelo alento dessa esperança, mas também pela consciência deste desespero, que passa a decisão confessória – quando destinada a resolver aquela culpa mordente que normalmente a precipita.
Madalena, a jovem que poderia dizer-se ainda debutante se a linguagem da moral social vigente o consentisse, não dispunha de letras para monologar tais dilemas, mas tinha uma inteligência suficientemente viva para de algum modo intuir opções, enquanto esperava pelo advogado que a mãe lhe contratara. Chegava a parecer-lhe estranho que pudesse conferir-se algum significado a uma confissão produzida num encontro marcado tão tecnicamente e num ambiente tão friamente encenado. Nem sabia se o advogado esperaria ou quereria que ela lhe fizesse uma confissão, nem estava segura de que fosse ela própria capaz de lha desfiar, com tudo certinho. Não sentia a íntima culpa cuja completa dimensão o próprio sujeito só conhece quando não pode arrostar mais a angústia da dúvida sobre até quando aguenta o segredo ou até onde consegue chegar com ele. Mas facilmente decifrava que o caminho até ao julgamento lhe seria mais fácil de percorrer ao lado do advogado se o primeiro relato dos factos fosse rectilíneo e liso.
Sentaram-se ambos vagarosamente, ainda o guarda fechava delicadamente a porta por onde saía, deixando-os a sós. A sala era minúscula e lúgubre, como em quase todas as prisões da época. Servia exclusivamente para os encontros entre preso e advogado e tinha por única mobília a mesinha quadrada, de pernas cromadas e tampo em fórmica castanha, e as duas cadeiras a condizer. As paredes, de reboco caiado irregular mas bem conservado, aliviavam o ambiente, pelo branco que as escondia de alto a baixo, só quebrado pela única janela, tão alta e inacessível que mais funcionava como fresta cuja única serventia era a claridade, ainda assim ajudada por uma lâmpada tubular que do alto do tecto atenuava a penumbra.
Com o bloco de notas ainda seguro pelas duas mãos mal assentes na mesinha que os colocava frente a frente, o advogado fitou Madalena com aquele olhar compreensivo que a tragédia alheia suscita. Semi-cerrou os olhos, como que a associar-se ao vazio da dor que adivinhava nela. Esperava, claramente, que ela dissesse as primeiras palavras.
– Dávamo-nos bem... eu gostava muito dele...
Era natural que ela começasse por dizer aquilo. Mas não era novidade para o advogado, nem parecia ter importância para o relato do homicídio. O advogado manteve o silêncio e a expressão expectante, para que ela continuasse.
– Ele era bom ... quase todos os homens bons têm mau vinho ... aquilo estava escrito que tinha que acontecer... Para quê desculpas agora? A verdade é que o matei – continuou a rapariga. Falava em tom baixo e pausadamente, sem mover os olhos.
O advogado continuava em atitude atenta e plácida, como que a querer definir um à-vontade que a circunstância não propiciava.
Olhava o mais cinzentamente possível a jovem que já conhecia e de quem guardava uma impressão estranha. Loura oxigenada, olhos grandes e vivos, lábios carnudos ostensivamente pintados, roupa provocantemente justa ao corpo um pouco roliço mas bem torneado, fumo soprado em torrente farta e compacta. Uma figura que a ele não tinha inspirado muito crédito da primeira vez que o tinha procurado, mas que enformava um carácter que o surpreendera muito agradavelmente.
Era ainda a mesma figura que o advogado recordava do primeiro contacto que tinha mantido com ela uns três anos antes. Dessa vez era ela simples acompanhante do irmão, a quem ele representara no processo da agressão que quase levara o rapaz à morte, por força de golpes de navalha que só por milagre lhe não dilaceraram o fígado. Correu bem o julgamento, foi severa e justa a pena que castigou os agressores – e para isso contribuiu muito Madalena, que, então com uma idade em que poderia ainda brincar com bonecas, depôs no Tribunal com convicção e tinha estimulado o advogado a estudar e preparar entusiasticamente o processo, especialmente pelo enérgico desassombro com que ela transmitia a indignação pela cobardia dos que tinham atacado o irmão à falsa fé.
Por ironia do destino, era ainda o irmão personagem do crime que agora a levara a ela à prisão. Tinha sido atingido a tiro na véspera.
À hora em que o advogado conferenciava com ela na cadeia estaria o funeral a decorrer.

Parecia-lhe que na tarde do crime tudo tinha passado muito depressa: A polícia foi chamada ao mesmo tempo que a ambulância para o irmão – e Madalena foi transportada ao posto da polícia mesmo sem antes ter havido qualquer interrogatório ou inquérito.
No posto, não chegou a entrar na única cela que havia. Aguardou, sentada no compartimento que para quem ali entrasse pareceria ser o único. Os três guardas que por ali estavam, com aspecto entediado e indiferente, tinham dificuldade em se acantonar atrás do balcão semi-circular. Fora dessa área de expediente sobrava um outro tanto espaço para a única cadeira que indicaram à rapariga. Esta área destinada ao público, estreitamente contígua à porta de entrada, não comportava mais que duas ou três pessoas, que teriam de ficar de pé enquanto as atendessem. Deu o bilhete de identidade ao agente que dactilografava o que lhe pareceu ser um impresso, e apenas lhe respondeu a duas ou três perguntas sobre a sua identificação: residência habitual, profissão, se alguma vez tinha estado presa -- e talvez nada mais. Terá passado meia hora, uma hora, esperando em silêncio que a levassem ao juiz de instrução. Dos guardas, apenas ficou a recordar a expressão compreensiva e até algo dolente de um que, em voz baixa, lhe dissera: "Vocês arranjam cada desgraça...". Não se questionou porque empregava o polícia o plural – compreendia a rotina.
A espera no Tribunal, o interrogatório e nova espera para que fosse proferida a decisão do juiz de instrução e a viagem para a cadeia tinham feito chegar as onze da noite. Já na prisão se dormia. Madalena não tinha fome, mas estranhou que durante todas aquelas horas ninguém lhe tivesse perguntado se precisava de comer.
Nunca mais conseguiu lembrar-se o que se passou entre a hora a que chegou à cadeia e a chegada do advogado, às duas da tarde do dia seguinte. À parte a primeira imagem do presídio, na noite da chegada, a sua memória da reclusão começou com a voz que a chamou para se dirigir à saleta, onde o causídico já a aguardava.
Quando, no fim da longa entrevista, o guarda prisional abriu a porta para o advogado sair, Madalena sentiu-se subitamente num outro mundo. Como que num arrepio, pareceu-lhe que o bater da porta à saída do advogado marcava a despedida do mundo seu conhecido – e a verdade é que mal o conhecia. Olhou à volta e, medindo cada centímetro das paredes, do mobiliário, dos próprios acessórios insignificantes como a fechadura ou as dobradiças da porta que ligava ao corredor para o interior, tudo lhe parecia estranho, feito de formas e matéria diferentes das que conhecia em tanto sítio por onde tinha passado. Sentiu-se aturdida, como numa tontura que tivesse levantado uma barreira entre a realidade à sua volta e os seus sentidos: tinha a vista limpa mas não conseguia que os olhos retivessem um único objecto; tinha o ouvido apurado e claro como sempre, mas eram-lhe alheios os sons que se produziam por ali, se é que mais tarde podia afirmar que houvera som.
Deu por novo hiato na memória quando se achou sozinha na cela, noite já alta, num silêncio calmo mas medonho, agravado pela escuridão completa. Tinha regressado do encontro com o advogado ainda o entardecer dispensava a tremeluzente lâmpada do tecto alto da cela. Deixara cair a noite naquele estado de vigília que fica entre o sono demasiado leve e a falta de acção para se fazer o que quer que seja. Sentiu que acordava, tendo a impressão de que não dormira.
Foi então que pensou no medo. Tinha medo do medo. Ainda não tinha tido tempo nem serenidade para se sentir no luto pelo companheiro de sempre, pela única pessoa com quem partilhara segredos a vida inteira, mas naquele que lhe parecia ser o primeiro momento em que se encontrava a sós consigo mesma assaltou-a a ideia de que havia de ser inevitável que nessa noite não a largariam os fantasmas da tragédia. Como ia ser a noite inteira naquele cubículo sinistro e asfixiante? Quando viriam ao seu encontro as imagens do crime e do irmão a pedir contas pelo resto da vida que não podia viver? A qualquer momento, certamente.
Estava espantada e quase revoltada consigo própria. Porque é que ela, que ainda não tinha chorado o irmão (era o que lhe parecia) pensava no medo? Medo era coisa que nunca tinha sentido na vida; ter medo era uma atitude piegas, um direito que nunca lhe tinham concedido e de que não precisava. Além disso, não é aos dezanove anos que se tem medo pela primeira vez -- era sentimento reservado a crianças ou a quem fosse muito mais velho. E que razões tinha ela para se sentir desconfortável por estar longe de casa e não poder voltar para lá, ela que estava habituada a andar por todo o lado e passar por tudo o que era cómodo e incómodo, ela que em casa nada tinha de confortável, para mais agora que não tinha o irmão?
Reviu imagens do irmão. Sentada na beira da cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos acamando o queixo que concentrava o peso da cabeça, perfilaram-se-lhe em cascata cenas da vida que tivera com ele, como se fosse ela quem estava morta ou para morrer. O caminho da quinta à aldeia, o murete da estrada, o regresso para casa a altas horas e em passo apressado, a expressão de carinhosa bonomia do irmão incapaz de se zangar pelo atraso dela a chegar ao ponto de encontro para voltarem a casa ao fim da noite, a empatia forte no final da confissão do único amor dele... Mil imagens, ao pormenor da frase que ele interrompia à procura da palavra exacta, quase precisando com rigor os momentos em que ele acendia o cigarro na esperança de encontrar palavras e coragem para voltar a falar da amada, quase voltando a sentir o ridículo que chegava a encontrar nas forçadas idas dela à fazenda do pai da futura cunhada para levar os bilhetes que o irmão lhe pedia que entregasse.
Pareceu chegado num ápice o toque da campainha da cadeia para o primeiro almoço. Sol alto. Sete e meia. Quantas vezes por semana poderia tomar um banho? Onde e o que fazer para o solicitar? Não haviam de tardar a dar-lhe as regras do seu novo modo de vida. Também era certo que isso não chegava a preocupá-la.
Nova admiração com sentimentos inesperados: não cedera ao medo... O medo, que tanto receava no princípio daquela noite imaginada como a mais longa de sempre e que afinal tinha passado sem dar pelo tempo; não lhe ocupara o pensamento uma só imagem do crime, nem a nova vida da mãe de repente privada de ambos os filhos, nem a precoce viuvez da cunhada, nem a triste orfandade dos sobrinhos.
Só nesse momento, já atrasada a sair da cela, lhe acorreu uma ideia de desolação: não acompanhara o irmão no funeral. Faltara-lhe com a sua companhia pela primeira vez – e no adeus definitivo.
Só uma lágrima e só nesse momento.

Madalena e o irmão eram amigos. Quem os via, durante toda uma idade que seria de adolescência não fosse a viuvez da mãe, via-os sempre juntos. O caminho da pequena quinta, em que viviam e trabalhavam, à aldeia onde nas noites de Verão iam folgar o corpo do árduo trabalho de pobres rurais, era sempre partilhado. A ida à cidade era sempre motivo para Madalena acompanhar os assuntos do irmão, ou para ele colaborar nas diligências dela.
Era uma convivência que se evidenciava em quantidade e em intensidade, mas praticamente impenetrável na qualidade do afecto recíproco dos dois irmãos. Via-se-lhe a quantidade nos percursos urbanos da aldeia, media-se-lhe a intensidade no dia-a-dia da quinta. Mas nem os desatentos conterrâneos na aldeia, nem os atarefados vizinhos no campo alguma vez chegaram aos finos e recatados canais do afecto trocado por aquelas duas almas.
Durante o dia, de Verão e de Inverno, trabalhavam na agricultura modesta que o pai lhes deixara e que era dirigida pela mãe. Ocupavam-se frequentemente em tarefas comuns, mas mesmo quando assim acontecia o que rasgava o silêncio eram as cantigas dela ou as expressões que ele dirigia, aqui e além, às coisas com que lidava – em voz de comando ou de afago aos animais, em interjeição azeda ou paciente reclamando maior eficiência às alfaias ou ferramentas que manuseava, em indignação ou agradecimento dirigido aos produtos que colhia e conforme a natureza lhos dava pródiga ou avara. Quando terminavam a lide, ao sol-pôr, vinham cada um consigo mesmo, Madalena em passo afoito e sempre à frente, o irmão logo a seguir e de olhar mais abstracto. O silêncio era então uma regra consentida tácita e suavemente – que já uma pausa refrescava, para o dia seguinte, as interpelações do rapaz aos animais e o repertório de discoteca na inspiração dela. A ceia era sorvida com o mutismo próprio das refeições rurais, só entrecortado pelas perguntas ou recomendações que a mãe fazia a propósito do amanho das terras.
Era à noite que mais se via a partilha daquelas duas vidas: O irmão lavava-se e mudava de roupa de forma bastante breve, mas esperava pacientemente pela toilette de Madalena, bem mais demorada; tinham televisão, mas ele preferia esperar a irmã no terreiro em frente da porta de entrada da casinha de rés-do-chão, enquanto fumava o primeiro cigarro do dia.
Mas eram muitas as noites chuvosas de inverno, com o rigor próprio da região de interior montanhoso, e nessas ficavam em casa; ele debruçava-se sobre a mesa, com a cabeça apoiada nos braços largamente espojados, orientando cuidadosamente o corpo de modo a ficar-lhe na frente dos olhos a televisão, que no entanto apenas lhe servia para companhia do primeiro sono, que rapidamente o vencia; ela, mais renitente em ceder ao cansaço do dia de labuta, sentava-se e levantava-se várias vezes, sem aquecer o lugar – e quase sempre acabava por se retirar para o quarto, onde se deitava sobre o divã que lhe servia de leito e passava os olhos sonhadores por uma das revistas que tinha a envelhecer sobre a cadeira de palha que lhe atravancava a alcova.
Nas noites boas – bastava não chover, que o frio e o breu pouco os reprimiam – saíam juntos e justificavam a imagem de inseparáveis que toda a vizinhança tinha deles. Percorriam a pé os quase três quilómetros da distância entre o chão e a aldeia. Os primeiros vinte minutos do percurso passavam-se ao longo do caminho rural, em quase toda a extensão ladeado de velhos muros de pedra que o tornavam numa quelha austera e digna, umas vezes aconchegante e outras medonha, consoante o elemento dominante fosse o vento gelado ou a escuridão silenciosa. Depois, já na estrada nacional, o ambiente era mais ameno, por causa dos passantes cujas vozes iam crescendo, ou dos faróis dos automóveis que rasgavam a escuridão. Com o silêncio e o escuro a serem quebrados constantemente, não davam pelo tempo em que chegavam à aldeia.
A aldeia era cinzenta mas aprazível. Bem arrumada na base da encosta, de tal modo que de qualquer ponto se divisava facilmente o conjunto de casas de pedra bem conservadoras de uma história rica e personalizada, em que não rareavam construções apalaçadas, nomeadamente vetustos monumentos e antigos edifícios públicos – tudo, montanha e povoado, com uma magnanimidade que fazia da aldeia a jóia natural da região. Fôra, em tempos há muito idos, sede do concelho e os moradores mantinham o orgulho na beleza arquitectónica e natural da terra, e a altivez das memórias do tempo anterior ao que consideravam ter sido o “roubo” dos paços do concelho, apesar de já lá irem mais de duzentos anos e de a actual sede do município, cidade de florescente desenvolvimento e possuidora das suas próprias tradições e memórias, ser hoje incomparavelmente maior e mais desenvolvida. Ainda se mantinha imune do vírus dos prédios por andares, que passados uns anos haveria de a atingir como a quase todas.
Se o espaço físico era belo, o ambiente humano da aldeia tornava-a ainda mais agradável. Como que resultando da organização do espaço nos velhos tempos de economia senhorial e nobre, como que não resistindo ao natural convite das praças ladeadas de granito austero mas intimistas e das fontes monumentais bem ajardinadas e dotadas de bancos de pedra e recantos propícios ao convívio dos fins de tarde de Outono e das noites de Verão, os moradores mantiveram pelo tempo fora os hábitos de socialidade na fruição das ruas e dos espaços de ar livre da aldeia. A par disso, as actividades culturais que nas últimas décadas se tinham perdido por toda a parte mantinham-se bem vivas ali: fazer parte do grupo de teatro, do coro polifónico ou da oficina de música era comum a todas as classes sociais e idades. Estes hábitos sociais conferiam à aldeia um sabor pitoresco, segundo a óptica dos mais eruditos e socialmente mais considerados, ao mesmo tempo que eram sentidos com estimulante motivo de orgulho e entusiasmo para os mais pobres, como Madalena e o irmão.
Os dois jovens cumpriam a rotina do passeio nocturno à aldeia havia já dois ou três anos. Se durante o dia cumpriam a vida lado a lado, era à noite que partihavam os segredos próprios da idade e fixavam aqueles momentos que a juventude torna inesquecíveis. Madalena retinha de forma especial a ceia em que o irmão se lhe dirigiu, com um quê de timidez nada usual entre eles, convidando-a a ir até ao povo, ansioso por lhe confidenciar o primeiro enamoramento. A eleita do coração tenro e ansioso do rapaz era uma moça que distribuía o leite pelos vizinhos, ajudando o pai, homem circunspecto e calado que a vizinhança se habituara a ver distante mas sem antipatia. A confissão daquele amor não a fez o rapaz nessa primeira noite de passeio à aldeia, porque lhe faltou a maneira de iniciar a conversa. O falhanço foi motivo para repetir o convite à irmã na noite seguinte. Dessa vez arranjou coragem para o desabafo, que de resto preparara durante a jorna. Sentaram-se no muro baixo da estrada e a conversa acabou por deixar incompleto o caminho para a aldeia, que eram desoras quando fizeram o primeiro silêncio e se aperceberam do adiantado do serão. E o hábito do passeio depois da ceia instalou-se assim nos irmãos. Soube que na noite da confidência o irmão não dormiu, excitado pela longa conversa que tivera com ela. Madalena recordou sempre com tanta ternura quanta a do irmão aquela noite em que reencontrou as horas no relógio que herdara do pai, “aquele dos números romanos”.

O irmão de Madalena tinha 20 anos quando foi a tribunal pela navalhada de que foi vítima. Era nessa ocasião um rapaz com aspecto humilde e démodé, vestindo calça e casaco iguais, de um cinzento pardo com uma fantasia discreta e vulgar, por cima de um colete de um outro tom de cinza e camisa branca de popelina com colarinhos moles e arrebitados, que mantinha apertados apesar de não usar gravata. O fato era o único que tinha para ir à cidade à segunda-feira, dia de mercado agrícola e feriado semanal para a população rural, que trabalhava ao domingo para no dia seguinte ir mercar os víveres que produzia e apreçar os químicos e sementes necessários à lavoura, mas também uma ou outra peça de roupa e alguma pequena alfaia cuja aquisição não podia esperar pela feira de Outubro, mais asada e guarnecida para o comércio dos equipamentos agrícolas. Tinha figura humilde mas muito asseada, o que de resto lhe valorizava uma beleza natural que faria dele um verdadeiro narciso se tivesse nascido numa classe de maior desafogo e mais ornamentos. Rosto perfeito, olhos claros, pele esticada e limpa por dádiva da natureza que assim lha conservava, cabelo negro e liso, invariavelmente brilhante de lavado e com uma franja naïf sobre a testa – o que, tudo, conferia um certo encanto àquele corpo alto e magro, encolhido no fato apertado e com mangas e pernas visivelmente curtas. Era, enfim, um perfeito exemplar das personagens que avivam em qualquer alma sensível aquela tristeza da injustiça da Vida na distribuição dos lugares na hierarquia social. Para mais, era um rapaz de poucas palavras, dizendo porém o que era suficiente e necessário para se explicar – e isto ressaltava a finura que na verdade tinha.
A Madalena moldara-a diferentemente a mesma origem. Tal como o irmão, tinha humor sóbrio e aparentava à primeira vista uma dureza que fàcilmente se revelava ilusória a quem a conhecesse melhor; mas a pose era mais altiva, a fala mais fluente, o olhar menos afável e mais vivamente inteligente. Não era antipática, mas raramente sorria. Vestia mais arrojadamente – calça justa às coxas roliças e metida pelas botas altas, blusa provocante e casaco de malha sempre com as mangas puxadas até ao meio do antebraço – exibia o farto cabelo, oxigenado, todo puxado para cima de um dos ombros ou em rabo-de-cavalo, não raramente adornado com travessas ou rosetas bastante coloridas mas com bom gosto, normalmente de tonalidade rigorosamente igual à do baton que lhe destacava sobremaneira os lábios carnudos.
A exuberância das roupas e da maquilhagem valiam à rapariga, que toda a gente sabia de família humilde, ser tida como leviana pelos vizinhos. De pouco lhe servia a firmeza com que sabia manter à distância os homens que permanentemente se tentavam a assediá-la. Porventura por alguma premonitória justeza da censura ou por consequência desse agouro social, tomou-se de amores com um homem que poderia ser pai dela, quando mal tinha completado dezanove anos.

Ou porque a Vida não lhe deu tempo ou porque a sua própria índole lhe não deixava espaço no coração, Madalena nunca reagiu ao facto de o companheiro ser mal aceite pelo irmão. Tratava-se de dois homens de caracteres semelhantes, que embora nunca salamurdos eram ambos calados e sérios, e o finca-pé de cada um não dar o braço a torcer ao outro parecia-lhe a ela coisa pouco grave. Depois, compreendia a reserva do irmão, que tal como ela carregava um certo sentimento de pouca sorte, nascido com a orfandade precoce e desenvolvido por todas aquelas barreiras que se deparam – quantas vezes maldosamente – a quem teima em tocar a vida com as suas próprias forças. Resignavam-na a certeza de que a esquiva do irmão era questão mais de insegura auto-estima do que de agressivo orgulho e a justificação de que a vida de jovem marido e pai o convocava para ocupações mais prementes. Também o companheiro mantinha a distância do cunhado sem comentar a vida deste – e Madalena sentia isso como bastante e arredava as saudades da cumplicidade com o irmão com naturalidade nem sempre espontânea.
Ainda mal tinham estreado as obras feitas na antiga palheira que a mãe dela lhe dispensou para se acomodarem, Madalena e o companheiro deixaram entrever um mal disfarçado arrefecimento dentro de portas. A mãe, que nunca exuberara com aquela união, começou a tentar aproximar-se dos silêncios da filha, onde na verdade nunca conseguiu penetrar. O irmão escondia a preocupação pela felicidade da irmã, mas desviava as suas voltas pelo campo para espreitar o semblante dela sempre que podia. Eram, todos, gente habituada à solidão ante os distantes mas incomodada pela quebrada companhia dos solidários de sempre. Na courela as manhãs eram de ansiosos andares à procura de se cruzarem e os fins de tarde de frustrada quietude do terreiro adjacente às casas.
Mas não viveram muito tempo estes desencontrados passos. O companheiro de Madalena, franzino e macilento, começou a acumular as faltas de apetite e as digestões difíceis de sempre com uma brusca perda de peso, e pouco tempo depois vieram outros sintomas de ter mal ruim. O veredicto do médico foi sombrio, logo na conferência dos primeiros exames. Foi operado aos intestinos, mas na hora de perguntarem pela duração da convalescença a resposta foi o silêncio que temiam. Com o passar dos dias e a recidiva dos males foram-se desenganando todos. O doente começou a beber, contra todas as inquietações de todos, mas com a complacência de Madalena. O vinho por vezes iludia-o numa certa letargia que o seu feitio solitário alimentava, mas os momentos de revolta e azedume foram-se multiplicando. Madalena nunca mais o deixou a mais de cem metros ou meia hora das tarefas que ela não podia descurar na agricultura. E o irmão passou a frequentar o terreiro das casas como ainda não tinha feito nos tempos de casado. Sem necessidade de alguma vez terem falado de pazes, ele e o cunhado passaram a conviver amiúde, num clima de estranho mutismo mas de conforto para Madalena e a mãe.

Um dia chegou-lhes o diabo. Madalena foi chamada pela afronta da mãe, que viesse à gritaria que lhe ia em casa. O companheiro tinha começado o alarido, quem sabe se pelo desatino da bebida se pelo desespero das dores, e o irmão estava fechado com ele dentro das paredes em que ressoavam berros a duas vozes. As duas mulheres apressaram-se afoitas e de sobrolho carregado. Iam ainda na eira quando o estampido de um tiro lhes estugou o desvario.
Quando Madalena abriu a porta do quarto, o irmão jazia de lado no chão, agarrado contorcidamente ao pescoço, e o companheiro estava sentado no tapete e com a testa apoiada na cama. Já tresloucada, ainda perguntou o que é que afinal se tinha passado ali.
Quando a emergência médica estava a chegar, Madalena acudiu à inquietação do irmão, que, num último esforço, lhe disse: “Era para o livrar…”.
Ajudavam a meter o irmão na ambulância quando chegou a polícia. Madalena acusou-se e entregou-se.
Antes do último suspiro, o irmão, apercebendo-se da morte ou por medo de que ela lhe viesse, tinha-lhe lançado um ar de bonomia, como de ser ele a preocupar-se em tranquilizá-la.
Ficou certa de que o irmão havia de a ter perdoado. Pelo amor que lhe tinha e pelos dois homens que ela protegia – aquele que também em breve a deixaria e o outro que, já apertado no ventre dela, se aprontava para vir tomar o lugar do pai.



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José
(Saudade Só)


O ano 2000 foi tomado como uma meta por José, durante metade da sua vida. Não era por razões milenaristas, ou não era só por elas, porque foi a coincidência do final do século com os seus sessenta e cinco anos aquilo que mais o determinou na ideia quase obsessiva de mudar nessa ocasião o ritmo e o sentido da vida dele e da mulher. Estava, porém, longe de imaginar a série de mudanças que haviam de ter os dois nesse ano de numeração quase cabalística.
Emigraram muito novos. Tinha ele vinte e cinco anos quando foi na frente, para tentar a adaptação e a sorte, e um ano após chamou-a para ser sua mulher e o acompanhar na procura de geografia mais afortunada. Não foi decisão fácil, apegados que estavam à aldeia e à família, mais ela do que ele, que tinha feito o serviço militar na Índia e por força dessa obrigação aprendeu o sabor da aventura da viagem, que no caso da sua primeira durou uma rota de meio planeta e o levou para cerca de um mês de casa por mar nem sempre hospitaleiro. Quando regressou vinha habituado à separação e desabituado das actividades que na aldeia eram próprias dos homens da sua idade. Um conterrâneo que de dois em dois anos vinha da Venezuela passar férias ajudou na descoberta do novo mundo, tais eram as facilidades de por lá se começar vida que testemunhava.
Quando partiu para a América, José sabia que ia ter saudades diferentes das que passou na Índia. Agora tinha, com o seu quê de paradoxal, menos pressa de voltar, ciente de que um regresso breve seria a dura demonstração de não achar o sucesso cuja esperança o fazia lançar-se na aventura. Mas, ao mesmo tempo, essa mesma expectativa de conseguir assento na Venezuela dizia-lhe que a separação seria necessariamente menos intervalada e por isso mais dolorosa. Só quem um dia é obrigado a renunciar às memórias de raiz conhece a sensação de se partir a vida ao meio, como que ocorrendo simultaneamente uma precoce morte com um tardio começar de vida nova. Assim ia ele quando, do carro de aluguer que o levou ao embarque em Lisboa, deteve vagarosamente o olhar no casario da aldeia que lhe ficava para trás, num esgar tão aprisionador da paisagem que tinha medo de deixar escapar pelo tempo, quanto prisioneiro da irreversibilidade da decisão tomada.
Não era o quotidiano da aldeia que arquivava como passado, na saída para a emigração. A história mais recente estava-lhe ainda ligada à Índia e à provisoriedade do extremo oriente, que nunca deixou marcar-lhe um modo de vida. Eram os tempos da infância e da primeira juventude que maior calo lhe deixavam no coração. Quem cresce numa aldeia provinciana e parada no tempo muito dificilmente se desliga do tempo da escola, da corrida pelos grilos ou pelos ninhos, das furtivas idas para a ribeira, das quermesses das festas populares nas noites quentes de Agosto, das manhãs húmidas na catadura dos muros velhos pelo musgo para o presépio, do fato novo no domingo de aleluia. A José estavam-lhe todos esses sulcos indeléveis na memória, e todos entre si ligados pelos dias mais felizes da existência: aqueles em que, ano após ano e por dias inteiros e pacientes caminhadas, acompanhara o pai nos verões da aldeia. O pai tinha a arte do acordeão, durante gerações presença indispensável de arraiais e jornadas de inspecção militar – e José não falhou uma saída ao longo de anos, nem que para isso tivesse que uma ou outra vez faltar às obrigações escolares, com a distraída complacência do pai. Mal dormia na véspera da qualquer desses acontecimentos, tal era a ansiedade com que aguardava a jornada, tal era a paixão pelo acordeão e pela alegria que as modas afinadas do pai espalhava pelas atmosferas que enchia. O acordeão foi, naquela meninice, o instrumento dos sonhos mais fantásticos e tornou-se, com o tempo, a recordação mais terna do protagonismo da família no meio e da geral admiração pelo feitio leve e brejeiro do pai. Foi a musicalidade dele que José evocou no ouvido nos dias mais longos da tropa, e era o timbre das melodias dele que fazia por guardar na hora de abalar à procura de vida do outro lado do mundo.
Em Caracas, foi durante três anos empregado do português que o tinha conduzido à emigração. Era já um fiel gerente do negócio de abastecimento alimentar do próspero compatriota quando, com algum melindre do patrão, montou o seu próprio comércio. Durante uma boa meia dúzia de anos foi fazendo crescer o seu armazém de calçado, que projectou com a ideia de vir a ser importador de sapataria portuguesa, o que nunca veio a concretizar. Cresceu-lhe também a família, pela vinda de três filhos, que criou com o desejo de os trazer de visita aos avós logo que tivessem idade para viajar, mas os cinco anos de seguidos partos e gravidezes da mulher só contribuíram para afundar mais o fosso de oceano que o separava de Portugal. Os rapazes criaram-se numa crescente abstracção das fotografias dos parentes portugueses, cujas idades iam sabendo corresponderem cada vez menos àquela indefinida juventude que no preto e branco dos álbuns do pai mantinha olhares imutáveis e incaracterísticos. Já o mais velho tinha nove anos quando o numeroso agregado se deslocou de férias à aldeia, onde José já não tinha ninguém para dar a partilhar aos filhos, longínquos às interpelações dos tios e dos avós, como se o sotaque do puro português lhes desse a ouvir uma civilização de outro mundo. Vieram mais duas ou três vezes, enquanto lhes amadurava a vontade própria, mas desde que eles próprios se casaram José passou a vir acompanhado apenas da mulher. Até que chegou o ano 2000, o casal conseguiu vencer a distância e a amarra aos armazéns de calçado umas dez vezes, ao todo.
José chegou aos sessenta e cinco anos sem ter feito a fortuna que lhe tinham dito ser automática quando o entusiasmaram a emigrar. O comércio de quatro décadas foi apenas um modo de vida com a dignidade que, bem vistas as coisas, talvez lhe não fosse impossível ter conseguido na sua terra e junto dos seus. Mas foi esse o destino que por lá construíu e a que se habituou com a mesma falta de ambição que a sua condição de homem simples o moldou desde a infância. A ideia de se reformar na viragem do século deixou de o preocupar à medida que a data se foi aproximando, ou porque as poupanças conseguidas não lhe permitiam tal veleidade, ou porque a vida que levava era a que conformadamente tinha assimilado como confortável rotina.
Foi por essa ocasião, com o século já mudado e a reforma já esquecida, que as circunstâncias se lhe precipitaram e a vida se lhe transfigurou para além de todos os projectos e previsões.
O turbilhão de acontecimentos começou, por capricho da coincidência, no dia de ano novo. O conterrâneo e antigo patrão, com quem manteve sempre ligação estreita, anunciou-lhe a decisão de regressar a Portugal – que se sentia velho, que tinha os filhos criados e os netos desligados da casa paterna, que tinha recebido da Venezuela tudo o que podia esperar, que queria enfim acabar os seus dias na aldeia. A notícia fez José ficar pensativo e ser atacado de uma nostalgia que lhe tinha andado disfarçada pelo meio da sua própria casa, mas que então o assaltou com mais força do que a vaga recordação de Portugal que lhe costumava vir nas horas de menos movimento no comércio. Fosse porque o compatriota era o seu mais forte elo social, fosse pela associação da pessoa dele com a decisão que ele próprio tinha tomado quando emigrou, José sentiu pela primeira vez que ficar na América não era para a vida toda, não era uma fatalidade. Andava confuso, nos primeiros dias consigo mesmo, depois lançando de vez em quando a ideia do regresso à mulher, como que a indagar do que sentiria ela a propósito. E um dia foi ela que lhe perguntou se voltar à aldeia do berço era para ele um propósito sério, num tom que deixava saber que a ideia não lhe desagradava a ela também. A conversa passou a ser cada vez mais frequente. Mas havia um sem número de questões a ponderar, desde as raízes próprias dos filhos e das noras até à conjuntura económica e política da Venezuela, que tornava muito difícil encaminharem os seus bens e trazerem as suas poupanças para Portugal. Como quase todas as decisões estruturais da vida de um homem, ao princípio tudo lhe parecia um sonho que nem sequer lhe era fácil aclarar.
Coincidiu porém com esse estado de confusão um outro sobressalto no conformismo da emigração. Um dos irmãos telefonou-lhe um dia a dar a notícia de que o pai estava no hospital, muito doente e sem parecer que os noventa anos fossem capazes de gerar forças para recuperar de uma grave complicação cardiovascular. A notícia foi um estrondo na consciência de José, que num ápice passou da auto-inculpação por não vir a Portugal havia mais de seis anos à decisão de se por imediatamente a caminho. Pôs a possibilidade de fazer a viagem sozinho, mas a mulher fez questão de acompanhá-lo. Durante as nove horas no avião não houve tema de conversa que afastasse a obsessiva dúvida de encontrar o pai ainda vivo.
Vinha por uma semana ou pouco mais, mas foi prolongando a permanência na esperança de que o pai, no leito do hospital, ao menos o reconhecesse. Ficou quase um mês, metade do qual já sem a companhia da mulher, que teve de ir assumir a guarda do negócio em Caracas. E nas longas horas em que no hospital esperava pelo início da visita ao pai a ideia do regresso da emigração era dominadora. Em casa da mãe, José quase não falava – só ensimesmava as diligências que teria de fazer na Venezuela para preparar o regresso. De vez em quando vinham-lhe as imagens dos filhos e voltava a indecisão, mas não raro dava por si a blasfemar contra o desinteresse deles pela pátria de origem. O coração dividia-se-lhe cada vez mas entre a estabilidade material que tinha na América e a paz de espírito que lhe parecia ser impossível voltar a ter lá. E regressou sem que o pai tivesse melhorado o suficiente para manter com ele uma conversa.
O reencontro com a mulher e os filhos fê-lo rapidamente saber que nada voltaria a ser como dantes. Andava permanentemente inquieto, enervava-se por tudo e por nada, sentia ele e sentiam todos que não conseguia pensar senão no pai e numa próxima viagem a Portugal. Reagia às tentativas da família em tranquilizá-lo, resmungando que tinha maus pressentimentos – e com esse forte argumento deixava os outros sem mais palavras. Às vezes sentia um remorso amargo por desconsiderar a preocupação que a família tinha à sua volta, mas era esse sentimento que, contraditoriamente, ainda o ia aquietando.
Não demorou, dolorosa apesar de não inesperada, a notícia da morte do pai. Recebeu-a com uma estranha revolta contra a sorte, contra a Venezuela e até contra os próprios filhos – mas, de tanto ter oscilado nos últimos tempos entre o azedume e o remorso, habituara-se a dominar esse sentimento no fundo de si mesmo e fez por não dar a percebê-lo. Os filhos disseram-lhe, no mesmo dia, que tinham conseguido marcar quatro lugares no avião do dia seguinte. Podia assistir ao funeral do pai, acompanhado mais uma vez da mulher e desta também dos filhos.
A viagem tinha hora marcada para o princípio da noite, mas o avião só descolou quase de madrugada. Chegaram à aldeia de noite, depois de esgotado o tempo que as cerimónias do enterro puderam esperar. José sentiu-se mal por ter sido a mãe a conformá-lo a ele, prevendo que os noventa anos dela nem sequer lhe dariam tempo para lhe retribuir o consolo. Mal desfrutou da presença dos irmãos, que pouco depois da chegada dele tiveram que cuidar de si próprios. A nostalgia pelo ambiente da aldeia e da família misturou-se com a saudade inexorável pelo pai. Sem saber como agradecer o inglório esforço dos filhos pela diligência na viagem, programou passar apenas dois dias com a mãe e voltar para Caracas. Esteve, ainda assim, o tempo suficiente para sorver uma série de recordações, trazidas nas respostas às perguntas que a propósito da aldeia e das suas figuras desfiou a todos com quantos conversou. Este estado de consentida nostalgia, alimentado em muito pelas indecisões em que andava quanto ao termo da emigração, teve um momento de ternura especial: contaram-lhe que o pai, uns tempos antes de adoecer, tinha manifestado a vontade de que nas partilhas que fizessem após a sua morte excluissem do acervo o acordeão que tinha feito as suas glórias de outras idades e que o José havia de gostar de guardar como recordação, pelo amor das lembranças que dele tinha.
Foi uma sucessão de acontecimentos demasiado impressivos, para quem sentia uma tão forte vontade de pôr fim ao tempo de emigração na América. José não demorou mais de dois meses a acabar de tomar a resolução de regressar definitivamente a Portugal e outros dois a preparar as suas coisas, para que os filhos acabassem de encaminhar os negócios e ele pudesse trazer algo de seu para acautelar a velhice. Um dos filhos superou a dificuldade de exportação de dinheiro, arranjando-lhe clandestinamente dólares norte-americanos através de um amigo que se deslocava frequentemente ao exterior. José e a mulher regressaram a tempo de virem passar o natal à aldeia, e vieram com a promessa dos filhos de que haveriam eles de vir mais vezes a Portugal.
Instalou-se em Portugal com a mesma naturalidade com que daqui partira quatro décadas antes. Os dólares que trouxe de nada lhe serviram, porque um dia recebeu um telefonema do banco noticiando que as notas que ali tinha depositado pertenciam a uma série de moeda falsa que pelos Estados Unidos fez correr tinta nos jornais. Sem desesperos, convenceu a mulher de que uma casa e um pedaço de terra que herdava do pai, mais uns poucos haveres que tinham trazido da Venezuela, lhes chegavam e sobravam para a vida que aqui queriam levar. Na partilha que fez com os irmãos, ninguém falou do acordeão e José também não se atreveu a recordar a vontade manifestada pelo pai. Mas a família não tinha esquecido a destinação do instrumento, que propositadamente tinha ficado em casa da mãe, para que José tomasse posse dele quando quisesse. Teve uma alegria infantil quando a mãe lhe disse um dia, a talho de foice numa conversa muito natural, que havia de levar o acordeão e tratar de ver se ainda servia para alguma coisa.
Num instante José arrumou a sua nova vida. Legalizou a camioneta que tinha trazido da América, deu imediata sequência à laboração do pequeno lagar de azeite que a família mantinha e que lhe coube nas partilhas, comprou criação para a courela que, com um bom olival e uma casa suficiente, lhe completara a sorte nas divisões, e com tudo isso sentiu-se ainda mais compensado porque a mulher estava tão feliz como ele. Do comerciante de Caracas restava sentimento nenhum – renasceu num ápice o rural de quarenta e cinco anos antes.
Mandou concertar o acordeão. A qualidade do instrumento fez-lhe uma surpresa, quando na oficina de reparação lhe disseram que tinha bastado um fole novo para se voltar a ouvir o som magnífico dos botões, duma fiabilidade que as fábricas dos dias de hoje já não produzem. Tinha uma vontade enorme de dar uso à preciosa recordação dos tempos de garoto e da popularidade do pai nos arraiais de outro tempo, mas receava ter-lhe passado a idade de aprender a tocar um instrumento cujo manejo não havia de ser fácil.
Numa noite de Dezembro, interromperam-lhe o aconchego da lareira as janeiras cantadas por um grupo que se acompanhava a acordeão. Fê-los entrar e deliciou-se com a conversa e o timbre melódico que lhe vinha dos tempos da infância. O rapaz que o tocava disse-lhe que era aluno de uma escola de música da cidade mais próxima. José sonhou a noite inteira com o acordeão e a escola que não conhecia.
José tinha ainda sessenta e cinco anos quando um ar novo lhe entrou pela vida. Foi à escola de música saber do que por lá havia. Na secretaria, estava um sujeito dos seus cinquenta anos, que se deu a conhecer – que era homem de afazeres, que estava a começar a aprendizagem da música, que havia outros de idades diversas, que toda a classe estava no início, que o entusiasmo era geral.
Aos sessenta e cinco anos José matriculou-se na aula de acordeão. Jurou a si mesmo que o seu regresso havia de ser completo.



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Amélia
(Silêncio Só)


Há vidas que parecem talhadas por um destino padrasto logo à nascença. Se é certo que a sorte é como o peixe que aparece mais a quem lança mais vezes a rede, não é menos verdade que mesmo antes de uma criatura ter autonomia para se iniciar na construção do seu próprio destino há um sem número de circunstâncias exteriores que lhe abrem portas ou lhe levantam barreiras no caminho por que se tece o futuro. A consciência desta fatalidade que é a diferente dose de fortuna no destino de cada um leva muitos a atribuírem os seus fracassos à falta de sorte na vida e quantas vezes é a causa mais presente daquele sentimento de auto-comiseração que ao mesmo tempo desculpa todos os insucessos e inibe todos os esforços. A cultura ocidental moderna, com o triunfo das ideias segundo as quais a culpa tem sempre uma raiz social, familiar ou qualquer outra exterior à simples vontade individual, despertou a consciência colectiva para a tolerância do erro pessoal, mas ao mesmo tempo favorece uma multidão de consciências conformadas com a sua própria abulia e passivamente revoltadas contra a falta de soluções que a vida lhes proporciona.
Para Amélia, mulher aparentemente comum na coexistência de qualidades pessoais e reveses do destino, a desproporção entre os normais favores que a vida lhe deu e aqueles de que anormalmente a privou foi tal, que nunca teve escolha entre esperar ou procurar pela sorte. Era uma daquelas pessoas que crescem com a permanente necessidade de contarem consigo mesmas, como que alheias à ideia de regalias que o acaso normalmente põe na vida de toda a gente.
Criou-se com a avó, pobre e velha, por força de não ter corrido bem a efémera ligação dos pais. Era ainda garota de colo quando, sem nunca ter sabido se por obra de maus tratos domésticos se por um daqueles episódios a que com simplismo se chamava leviandade, a mãe desapareceu por detrás de um bilhete de lacónica escrita em que se despedia e recomendava a menina à avó paterna. O pai, que segundo ficou a constar na quase silenciosa história do casal nunca foi muito de permanecer em casa, partiu quase de seguida. Amélia ficou a receber os cuidados da avó que aprendeu a tomar como mãe, mas por pouco tempo usufruíu desse privilégio, porque a saúde da septuagenária atalhou-lhe os brios de mãe-duas-vezes e obrigou a que a criança se adaptasse a receber os carinhos normais da sua idade divididos entre a casa do berço e o semi-internato no lar de apoio à infância local. Tinha cinco anos quando a doença da avó e a falta de notícias dos pais transformaram as duas em inquilinas de meio tempo da própria casa, que ao princípio do dia se fechava com a passagem das equipas de recolha das duas instituições sociais da cidade e ao anoitecer se reabria por nova passagem das mesmas brigadas de transporte. Desde essa idade, Amélia acudia às faltas nocturnas da avó, adiando a recuperação do sono para as horas do dia em que no orfanato lhe apreciavam a quietude. A única tia-avó que morava por perto, numa aldeia a uns vinte e cinco quilómetros, vinha aos domingos à tarde ajeitar as duas solitárias almas e dar à pequena um pouco do sol do jardim em que a via correr e brincar sem companhia, nas tardes de sol triste para ela mas nem tanto para a criança. Passaram assim quase dez anos, até que a rapariga teve o primeiro emprego de ajudante numa modesta leitaria, que uns meses mais tarde lhe proporcionou estudar à noite e galgar anos do ensino secundário quase por conta própria.
Ainda não tinha idade legal para trabalhar quando respondeu a um anúncio de emprego do primeiro grande supermercado que abriu na cidade. O gerente da nova organização, que costumava comprar cigarros na leitaria, conhecia-lhe as qualidades – e a entrevista de emprego foi fácil de superar. Em pouco tempo teve assento na caixa, lugar que qualquer recente empregado não desperdiçaria, e a regularidade dos horários deu-lhe novo estímulo para concluir os estudos do ensino secundário. As habilitações mais abonatórias e as qualidades de trabalho e de organização do seu posto terão contribuído para o acesso a um lugar na recepção da administração, com a surdina das más-línguas a garantir que a beleza dos dezassete anos desenvoltos da rapariga teria facilitado a escolha do gerente, um ricaço brutamontes com transbordada fama de mulherengo. Amélia passava por tudo isso discretamente, tão discretamente quanto a sua vida se ia arrumando.
No trabalho, Amélia era irrepreensível na sobriedade, para além de ter sempre total disponibilidade para colaborar, mesmo no que lhe não cabia. Foi natural a simpatia de quase todos, não tanto pela permanente boa disposição dela, como pela utilidade da sua fácil integração em qualquer tarefa, para que não precisavam de a solicitar. Tocava com aparente facilidade o dia a dia, como se no final de cada jornada não tivesse um sem número de ocupações a exigirem-lhe o mesmo cuidado e, por vezes, esforço severo. Tinha relação fácil com todos os companheiros de trabalho, mas cedo começou a apreciar especialmente a companhia de um, rapaz da sua idade, que como ela tinha começado muito jovem e que não obstante a sua juventude ocupava um lugar de autónoma responsabilidade na logística da empresa. Tiveram um percurso comum, talvez porque em comum tinham também algo na maneira de ser, empenhada e simples. Encontravam-se infalivelmente para o almoço na cantina e saíam juntos sempre que os turnos dele e as horas extraordinárias dela não contrariavam a coincidência. Com o tempo, todos os tomavam por namorados – e a verdade é que os olhares dos dois se cruzavam sempre com aquele brilho aberto que torna difícil esconder-se o sentimento da especial preferência. Habituaram-se a iludirem juntos a solidão que a vida de cada um deles tinha para além das paredes do supermercado.
Com a avó cada vez mais doente no lar onde passou a estar acolhida permanentemente, Amélia teve que enfrentar sozinha o senhorio do velho casarão que noutro tempo tinha albergado a família e que agora era habitado por ela só. O dono da casa questionava o direito de Amélia à casa, arrendada havia muitos anos pela avó e a precisar de obras. O que seria um sobressalto para qualquer um, foi para ela apenas o pretexto para tomar de renda um andar minúsculo mas moderno, próximo do centro da cidade – e mais simbolicamente marcar o início de uma vida nova e ainda mais auto-suficiente. Estreou-a numa noite de natal em que moveu montanhas para poder ter consigo a avó, que conseguiu deslocar do lar de idosos com a ajuda do amigo da logística. Saboreou a noite com o entusiasmo da nova vida e um quê de nostalgia por pressentir que seria a última em que tinha a companhia da única pessoa que realmente fazia parte da sua família. Não a enganou o pressentimento, pois que pouco tempo depois a avó mergulhou num estado de total desvinculação com a vida, no torpor próprio do final de uma vida de dias mais longos que os do comum das pessoas.
Passou, entretanto, a secretariar o gerente e a ser cada vez mais solicitada por ele para trabalho extra – mas a importância que ele não se cansava de atribuir às responsabilidades que lhe destinava provocava-lhe a ela um sentimento de limitação da sua própria liberdade. Os encontros com o rapaz da logística foram-se reduzindo à hora de almoço e o ambiente de trabalho parecia-lhe mais sofisticado. Mas trabalho era trabalho e a consciência da necessidade de aceitar as coisas como elas tinham de ser levavam-na a não pensar muito na espontaneidade de relações que noutro tempo tanto apreciava – agia como tinha de ser, como sempre. Chegavam-lhe as saudades da companhia mais frequente do colega da logística e isso levou-a a descobrir que não era simples amizade o que sentia por ele. Mas, mais do que a necessidade de não soçobrar na nova responsabilidade com a renda da casa, a maneira de ser que a vida lhe impôs desde pequena impedia-a de fazer o que quer que fosse para se poupar a tantas horas extraordinárias e proporcionar a si mesma a oportunidade de conviver mais com o companheiro, com quem já apenas almoçava e as mais das vezes à pressa.
Numa tarde de sábado em que o gerente mais uma vez a requisitou para o ajudar, sentiu pela primeira vez uma certa contrariedade em ir fazer o trabalho extraordinário, não sabia se por ter a percepção de que as tarefas a cumprir não eram urgentes, se porque o rapaz da logística a tinha convidado a um passeio, sob o pretexto duma inauguração perto da casa dela. Mais uma vez, a dúvida de aceder à solicitação do patrão pôs-se-lhe por pouco tempo – como era próprio do seu feitio, não foi capaz de recusar. Compareceu no escritório à hora que o outro lhe marcou e dispôs-se à tarde de trabalho, que, afinal, pouco rendeu.
Foi o gerente quem interrompeu as tarefas a meio dessa tarde, parecendo que só depois de três horas de trabalho se tinha dado conta de que estava a usurpar injustamente o tempo de descanso dela. Propôs que terminassem quando eram umas cinco e meia da tarde e ofereceu-se para a deixar em casa. Parou o carro à porta dela e felicitou-a por ter casa nova, gracejando que ela tinha de “apresentar” o andar novo aos amigos. Amélia convidou-o a entrar, embora com um certo embaraço por não ter em casa um café ou uma bebida para lhe oferecer. Subiram, e pareceu-lhe que também ele tinha algo de parecido com o nervoso acanhamento que ela sentia.
À falta de saber que outra coisa havia de fazer, mostrou a casa ao convidado. Foi um roteiro um pouco atabalhoado, sem saber o que dizer aos elogios do espaço e das mobílias da casa, que ele repetia a cada passo que davam. Foi conversa sem conteúdo, com uns à-partes de cujo verdadeiro sentido Amélia só se deu conta quando se sentaram na sala e ele, falando com um sorriso nervoso e uma pose juvenil, insistiu em que era uma pena ela usufruir sòzinha aquele acolhedor espaço, pousando a sua mão sobre o braço dela. Com a preocupação de simular uma naturalidade de que sabia não ser capaz, ela levantou-se e sentiu que as faces se lhe ruboresciam. Disfarçou o gesto como quem tivesse de movimentar-se para fazer algo necessário, mas ele levantou-se logo a seguir e, atalhando-a de frente, acariciou-lhe o ombro. Amélia teve um mau pressentimento. Tentou novamente afastar-se, mas ele segurou-a pelo braço, desta vez com força. Depois, tudo se sucedeu de uma forma indescritível, como se nada daquilo tivesse nexo, se é que algum sentido razoável podia imaginar-se para o que estava a acontecer. Amélia ficou primeiro paralisada, sem saber como reagir perante uma pessoa que não estava habituada a tratar senão respeitosamente nem preparada para encarar numa situação tão estúpida. Tentou ainda safar-se com um repelão em que concentrou todas as suas forças, mas ele agarrou-a de novo – e então já com um ar de estar fora de si, de olhos raiados de sangue e o sobrolho furioso e embagado de suor. Ainda tentou seduzi-la, com um fraseado patético e uma postura física desconchavada, e logo de seguida violentou-a e dobrou-a sobre o sofá. Ela só pensava em gritar, chamar por socorro, correr para a porta – mas faltavam-lhe as forças. No sufoco do desespero, fechou os olhos e pareceu-lhe ter aquela sensação que descrevem como o momento que precede a morte, com um ror de imagens a desfilarem-lhe na memória. Pensou na força do pai e na longínqua distância a que o sentia, relembrou os carinhos da avó e a semi-consciência do seu actual estado vegetativo, ocorreu-lhe a solidariedade do rapaz da logística e a inacessibilidade ao auxílio dele, imaginou o escândalo que havia de haver na vizinhança que mal conhecia. O patrão violou-a – e ela sentiu que morria, mais do que do repugnante nojo, mais do que da imensa vergonha, do pânico que até então não conhecia.
Tardou a mover-se da posição em que o gerente a deixou quando saíu apressadamente. Enrolada sobre o próprio colo desde que ele a soltou, parecia-lhe que nunca mais conseguiria distender as pernas ou endireitar o pescoço, tal era a contracção de todos os músculos do corpo. As lágrimas inundaram a almofada do sofá em que parecia caber-lhe todo o corpo e ainda sobrar espaço, mas eram o nojo e o desalento do tempo que não podia fazer andar para trás o que mais lhe doía, mais do que o próprio corpo, exposto àquele silêncio que a reduzia a uma massa sem vontade de nada do que pudesse significar-lhe a vida. Chorou de miséria, da miséria a que o destino tinha parecido votá-la desde que nascera e contra a qual sentia que tinha gasto todas as forças de que dispunha. Parecia-lhe que nunca mais dali sairia e pensava que nem valia a pena, com a sensação de que tinha de voltar a aprender todos os passos que se dão na vida e nunca seria capaz de sequer saber por onde começar. Aquele silêncio total, que nem os vizinhos nem ruídos da rua quebravam, tornava imenso o sentimento de abandono que a injustiçava. Só mais tarde vieram a raiva, a revolta e a jura de que havia de o matar – mas tudo lhe parecia logo patético, irreal, tão irreal como ter chegado àquela situação e não poder fazê-la reverter. A noite adentrou-se-lhe pela sala com uma escuridão que ao mesmo tempo parecia uma carícia de consolo e um adensar do castigo daquela impotência de reagir. Chorou horas a fio pela infância que na verdade nunca tivera, pelas ternuras da avó, pela falta da mãe, pelo desprezo da sorte. Via-se criança, a fazer juras de sobrevivência, e sentia que a vida a tinha derrotado sem piedade e sem razão.
Ninguém sabe dizer o que é pior nos dias que se seguem a uma situação assim – nem mesmo quem teve a desdita de passar por ela. Para Amélia, a seguir ao torpor do desânimo vieram um sem número de sentimentos, de dor funda, de impotência, de revolta, de ódio e até de culpa por não ter sabido interromper a sequência de acontecimentos que depois da violação lhe parecia demasiado simplista para não ter sido atalhada. No dia imediatamente seguinte, depois de a primeira luz da madrugada e a exaustão se terem conjugado numa aparência de aquietação, veio o estado de confusão: polícia, hospital, vizinhos, colega da logística – descartou sumariamente todas as hipóteses de auxílio. A exposição da vergonha que não era sua mas a ela a arrastaria e faria sofrer mais do que a ninguém era uma força que a travava precisamente tanto quanto lhe irrompia de dentro o instinto de a combater de frente. Passou horas de desconcerto – e apenas numa decisão não vacilou: escreveu uma carta.
Na segunda-feira seguinte, ao final do dia tocaram-lhe à campainha da porta. Por medo ou preferência da solidão, não atendeu. Espreitou pela janela e viu que era o rapaz da logística quem se afastava da porta de entrada – vinha por certo ver do que se passava, estranhando a primeira falta dela ao trabalho. Nesse momento, voltou a cair no choro, de tristeza, de abandono, de amor mais dorido do que jamais tinha imaginado que fosse possível. No dia seguinte, de manhã muito cedo, voltou a sentir a campainha da porta e soube logo que era o colega novamente. Compôs-se como pôde, abriu a porta e disse-lhe que estava doente, mas que já se tratava – e pediu-lhe que entregasse na gerência do emprego uma carta que lhe deu. Ele soube depois, pelo próprio gerente, que ela se tinha despedido.
O rapaz da logística tentou voltar a vê-la – mas em vão. Durante quatro dias não atendeu ao toque da campainha em que ele insistiu três vezes por dia, e a permanência dele em frente à entrada do prédio não a fez mudar de ideias. Só o encontrou, casualmente, oito dias mais tarde, precisamente da primeira vez que saíu à rua, e mesmo nessa ocasião esquivou-se a conversar, pedindo-lhe que não lhe falasse do emprego, com uma aparente secura que o levou a supor haver da parte dela vontade de se afastar dele e, por isso, foi eficaz para o inibir de voltar. Amélia apercebeu-se de ter conseguido esse intento – e teve o primeiro grande desgosto de amor.
Antes de ter chegado o final do mês Amélia tinha novo emprego. Sabia que a vizinha do andar imediatamente abaixo das suas águas furtadas, uma jovem farmacêutica de sorriso afável e pronto, procurava quem lhe cuidasse dos três filhos pequenos, e tomou o trabalho. Agradou-lhe tanto a circunstância de ficar dentro do próprio prédio nos tempos imediatos, como a coincidência do mês seguinte com a saída dos novos patrões para férias na praia e a expressa exigência de que ela os acompanhasse. Foi o inexcedível acolhimento do jovem casal, que por sua vez facilitou a adaptação às crianças, o que mais a ajudou a sair da profunda amargura em que a agressão execrável do antigo patrão a tinha deixado. Habituada a conviver com as cicatrizes que a sorte lhe marcava, deixou que pelo trabalho desse primeiro mês a vida se decidisse a continuar.
No regresso da praia a vida complicou-se. As regras próprias da biologia feminina atrasaram-se até ao ponto de fazerem sentir o arrepio de supor que podia estar grávida. O teste feito num pequeno estojo que comprou na farmácia deu-lhe o calafrio final, mesmo antes de a repetição lhe dar a terrível confirmação: estava a pontos de formar no ventre um ser vindo do sentido contrário àquele que qualquer mulher acolheria – da força em vez da vontade, do ódio em vez do amor, da repugnância em vez do desejo, da aberração em vez da realização. Sofreu mais uma vez pelo abandono, castigado por uma náusea do próprio corpo que a fazia sentir-se vítima de uma infecção fatal. A primeira reacção foi de render-se, mas a questão era saber como podia desistir de uma luta pela sobrevivência que não conhecia senão como sujeito activo.
Passou dias de angústia, ora mórbida, ora nervosa. Agora não bastava aceitar que a vida é o jogo que é, que há que jogá-lo com as suas regras próprias – tratava-se, mais do que isso, de tomar uma decisão. Voltava-lhe um absurdo sentimento de culpa, por sentir-se no direito de travar um processo biológico que por si só conduziria a uma vida. Precisava de ouvir alguém confirmar-lhe que a gestação da vida só faz sentido se for o resultado de um acto de amor, querido se não mesmo procurado, dotado de um sentido e, acima de tudo, humano. Mas não podia partilhar a decisão com ninguém – nem achava que merecesse ter de sujeitar-se a mais essa punição. Suportar o fruto do crime alheio parecia-lhe absurdo, e impor a aceitação e a coexistência da prova viva desse crime à própria vítima uma crueldade. Para mais, era a vítima quem ficaria submetida ao castigo, a um castigo agravado pelo ónus de o remediar, pela dor da lembrança do que só queria esquecer, pela incerteza da eficiência do remédio, pela solidão de tudo suportar sobre os próprios ombros. Mas não tinha, afinal, que sujeitar-se a mais do que sempre: contar consigo mesma, procurar por si a solução e seguir em frente.
As leis do tempo e a clareza do pensamento impeliram-na a uma decisão rápida. Informou-se pelos meios que descobriu, aprazou com os patrões dois dias de falta ao trabalho, deslocou-se para fora de portas – e fez o desmancho. No acto ainda verteu uma lágrima de dor, da dor pelo passado e pelo futuro. Depois, determinou-se a viver o presente, com a compreensão de que é nele que se sublimam as frustrações e se cumprem os projectos. Não lhe era deixada, de resto, alternativa. Regressou a casa e não precisou de usar a folga que tinha pedido para o dia seguinte – havia crianças a precisarem da sua presença.
Quiseram ainda violar-lhe o segredo de má recordação. Uns seis meses mais tarde, foi convocada a depor num inquérito que a polícia de investigação criminal estava a instruir sobre uma série de parteiras suspeitas de auxílio sistemático ao aborto. Depôs perante um oficial carrancudo e lacónico, que a recebeu com a informação de que tinha o direito a manter-se em silêncio. Usou desse direito e não fez mais do que ditar a sua identificação pessoal e assinar por baixo da declaração de que não queria prestar declarações. Mais tarde foi novamente chamada ao oficial carrancudo, mas apenas para receber a notícia de que a suspeita contra si tinha sido arquivada. Soube, nessa ocasião, que os patrões tinham sido chamados a testemunhar e que os seus peremptórios depoimentos tinham deixado a polícia sem razões para mais suspeita. Teve vontade de agradecer-lhes, mas preferiu o silêncio.
Carregou com o segredo durante muitos anos, arredada de contacto com homens por uma sensação que não sabia descrever a si mesma, nem achava natural. Revelou-o apenas quando, já depois dos trinta e cinco anos, o antigo colega da logística lhe confessou a estranheza pelo despedimento súbito do supermercado nos dias da juventude e por uma expressão do gerente, que lhe gerou um pressentimento – ao mesmo tempo que lhe pediu que desfizessem ambos a vida de solitários de tantos anos, propondo-lhe casamento.
Menos de um ano mais tarde Amélia chorava de alegria, na maternidade em que nasceu o filho que por amor quis ter. Era domingo e fazia um sol claro.




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Guilherme
(Só)


Entre os homens que nasceram em Portugal pelos meados do século vinte encontram-se sortes muito diversas. Houve os que escaparam à tropa, mas foram poucos aqueles que o conseguiram sem renunciarem a realizarem-se no seu próprio país; houve os que estudaram, mas poucos o fizeram sem terem de se submeter ao remorso de um exagerado sacrifício dos pais; houve os que receberam bons empregos, mas poucos lá chegaram por mérito e afirmada cidadania em conjunto; houve os que acederam ao mundo da cultura, mas raros tiveram essa sorte sem vencerem todas as anteriores. Houve, além de todos os incluídos nos géneros anteriores, uma imensidão de homens que por sua vez foram levados a uma de duas outras categorias: os que não deram pela sua sorte ou pouco se importaram com ela, e os que levaram a vida inteira com uma mais ou menos vaga expectativa de inverterem o destino.
Guilherme foi, na sorte que a vida lhe fez calhar, um português como a maioria – mas nem por isso passou indiferente por onde andou. Nascido na casa de um comerciante de negócio em desuso e pequena taberna na velha rua direita da vila também então pacata, trabalhou logo a seguir à instrução primária, teve de ir ao serviço militar obrigatório, regressou sem possibilidade de aspirar a emprego de desafogo e casou modesto com a rapariga que por cá esperou a sorte dele em Angola. Quando se fez à vida de co-chefe de família era um daqueles operários qualificados que a conjuntura em regra destinava a trotearem por uma vida sempre igual e sempre sem ambições. Tinha, porém, uma condição que o impelia a solidões: uma atracção pelas áreas da cultura que o regime político vigente normalmente resguardava da sua classe.
Dir-se-ia que lhe veio do professor o gosto pelas letras. Numa sala de aula muito parecida a quase todas as de então, Guilherme distinguia-se não só entre os da sua condição social, também porque era de rapidez fulminante na aritmética, primoroso na leitura, acertado na gramática, maduro na redacção. O professor, chegado ao magistério cheio de vontade de ser um homem digno entre nascituros homens dignos, reparou cedo no miúdo que no intervalo grande não fugia para a ribeira com os de calções remendados como ele, nem jogava ao mata com os meninos mais preservados pelos muros da escola. Guilherme começou a vida condenado a uma solidão que, no resto, em nada casava com a sua curiosidade e o seu apetite por conversar. Talvez por isso, na hora das classificações fazia ao brilho dos mais aplicados uma espécie de sombra que o mestre não disfarçava, antes pelo contrário. E quando, no final da quarta classe, um juri de professores distinguiu o melhor conjunto de trabalhos do ano, foi ele o agraciado com uma pequena enciclopédia ilustrada – que havia de religiosamente guardar como precioso e quiçá único troféu de rapaz.
Também na juventude Guilherme fugiu ao quase inexorável manto de vazia memória de futuro que cobria a generalidade dos da sua classe. Não porque algum privilégio lhe houvesse sido concedido por um destes acasos felizes que normalmente só vêm escritos nos livros de outra classe já de si mais bafejada pelo manejo dos cordões com que se faz da vida marioneta. Foi porque aquilo que a vida lhe não deu trazia-o ele nas reservas da auto-estima escolar. À saída da escola, ajudou por pouco tempo na taberna do pai, porque na época ainda havia fartura de vagas nas oficinas de mecânica – e ele agarrou com as duas mãos o tirocínio que lhe proporcionaram. Ainda não tinha quinze anos quando o patrão lhe ofereceu a possibilidade de passar às mais finas artes de electricista, e ele mais uma vez não a deixou fugir. Descobriu os segredos das correntes fracas com uma devoção que deu nas vistas aos mais velhos e um dia dois companheiros convidaram-no a tentar com eles a sorte de se estabelecerem por conta própria. Mas Guilherme tinha menos ambições e mais aspirações. Gostava do trabalho que lhe era confiado e das possibilidades, que na grande oficina lhe não faltavam, de melhorar de sua conta a produtividade da cadeia de colegas que se lhe seguia, mas tinha dentro de si desenvolvido uma outra paixão, que mais lhe preenchia a alma: a leitura. Com a disciplina que praticava na oficina, ou que talvez lhe viesse dos tempos da escola, anotava a lápis os livros de que se abastecia na biblioteca itinerante cada quinta-feira às sete da tarde, depois de à saída do emprego passar em casa a buscar os livros da semana anterior, criteriosamente desapossados das anotações pela borracha sempre muito cuidada. Com o livro de electricidade ou mecânica, no entanto, requisitava sempre um exemplar de Júlio Verne, de Salgari, ou coisa semelhante. Dessas leituras e da do jornal que o pai recebia diariamente na taberna passou a outras, e dessas ao gosto do cinema, e do conhecimento das fitas ao hábito de ir ao teatro do grupo amador cujos ensaios lhe levavam som à traseira do quintal e a que depois lhe foi permitido assistir nas noites de sábado.
Quando regressou da tropa, porém, Guilherme era um homem a quem faltava algo. A solidão da escola, a falta de interlocutores na oficina, a escassez de camaradas com quem discutir as suas curiosidades no serviço militar, tudo contrastara demasiado tempo com o instinto gregário de um homem a quem a revolução de 1974 apanhou em Luanda, mal conformado com o tédio em que a maioria dos companheiros deixava adormecer a contrariedade de uma guerra que não queria. Chegou à metrópole ainda colonial com avidez de se inteirar das transformações que adivinhava, mas desenquadrado entre os da profissão, da idade ou do bairro – todos se tinham dispersado e por cá as regras de convívio estavam a mudar aceleradamente. O casamento com a mulher que cá deixara ainda rapariga, se por um lado lhe mitigou a saudade amadurecida em cada aerograma durante mais de dois anos, por outro ajudou-o a encontrar-se num mundo que lhe parecia muito mais povoado e, ao mesmo tempo, mais despersonalizado. Sorvia os jornais, os noticiários radiofónicos, os programas televisivos de grande informação. O primeiro livro que procurou na nova livraria que encontrou ao fundo da rua foi uma História da Literatura Portuguesa, inquieto pela curiosidade do galaico-português de que lhe falaram uma noite à saída da representação de um auto vicentino.
Não demorou no retomar do lugar de electricista na oficina, nem no regresso à biblioteca itinerante. África, ou as faltas que ela lhe ditou, tinham feito despertar um interesse pela poesia que até então estivera meio adormecido. Releu Camões e percorreu todos os clássicos, descobriu Gedeão e Sophia, apaixonou-se pela palavra de Pessoa, começou a recolher anotações de todos em fichas, que meticulosamente coleccionou. Mas o sentimento de solidão voltou. Não que lhe faltasse companhia em casa ou no emprego, que os tempos de trabalho e na família eram preenchidos e ricos – mas porque tinha necessidade de falar das descobertas que nos livros o fascinavam e os assuntos que se punham aos que o rodeavam iam postergando os à-partes com que tentava introduzir o que guardava das suas leituras. Pensava por vezes que os temas das suas conversas enfastiavam as almas simples que, como ele, carregavam o cansaço de dias de trabalho absorvente e isso ainda mais o inibia. Levou nisso os dias da sua vida até que os filhos lhe saíram de casa, para irem às suas próprias vidas. Com o passar dos anos, experimentou aproximar-se de círculos que presumia terem hábitos mais semelhantes aos seus, mas por aí tinham outras preocupações – e cuidavam mais de falar do que de ouvir. Sentiu por fim que a idade e aquela serenidade contemplativa que com ela vem o tornavam solitário e ganhou receio de ficar ensimesmado. Ao mesmo tempo, havia um sem número de questões que na vida da terra e do país o inquietavam, e sentia uma visceral necessidade de confrontar os seus pensamentos com os de outros.
Um dia, pela persistência dos incómodos de uma úlcera nervosa e pelo alerta de estar a passar pelos cinquenta anos, Guilherme teve de ir ao médico e lembrou-se de consultar um antigo colega dos bancos da escola e companheiro de comissão em Angola, que tinha consultório na terra. O médico reconheceu-o logo que entrou e, com uma atitude cordial que a sua posição facilitava, recordou os tempos da guerra e a diferença dos dias de então.
– A guerra está aí, todos os dias e sob muitas formas. Veja o sangrento morticínio que se repete nas estradas todos os dias – aventurou Guilherme.
– A vida está complicada… – convinha o médico.
– Os fenómenos de antagonismo multiplicaram-se através dos tempos e, por sobre isso, crescem hoje também em qualidade e intensidade, que já não só em quantidade. Basta pensar-se na infinidade de "comodidades" que o capitalismo moderno oferece a um mercado composto de pessoas com cada vez menos capacidade para de modo realista as alcançarem. A imensa oferta de bens gera o apetite difícil de controlar, quando não novas "necessidades" impossíveis de satisfazer. Enquanto assim nasce a frustração, estimulam-se a comparação, a emulação, a competição – e despontam ao lado a inveja, o despeito e, no epílogo, a agressividade. E a agressividade, germinada neste terreno de cultura da luta por poder, facilmente se destila em agressão.
– Andamos todos muito agressivos, não é? – continuava o médico.
– A vida moderna e as modernas formas de turvar a ética com a conveniência adubam a pulsão antagonista e nervosa que germina no género humano. Veja o que se passa na moderna indústria do futebol…
– Nada de mais eficaz na gestação do antagonismo – o médico tentava acompanhar.
– Aí, já a competição não se distribui por alvos múltiplos (como no trânsito das estradas ou no concurso para emprego); concentra-se na mais radical das suas formas, o confronto bipolar. Com apenas duas forças em confronto, o que cada uma delas encontra no campo de batalha não é apenas um adversário, é o inimigo. Juntam-lhe, depois, o estrondo das claques; e a expressão económica dos interesses envolvidos; e o poder que estes interesses atraem e geram e necessitam e desenvolvem; e a inter-influência do poder com o interesse económico; e a espiral dessa influência no fomento das claques; e a agudização do confronto pela visibilidade que lhe é dada pela comunicação social; e a potenciação dessa visibilidade pelo interesse que os negócios têm pela comunicação social; e vice-versa.
O médico voltava: – E, depois, a mistura deste refinado campo de antagonismo que é o futebol com todas as derivadas das outras fontes de antagonismo.
– As frustrações do quotidiano, a revolta ante as injustiças impostas à vida e ao destino do indivíduo, a exponenciação da competição e da agressividade… Termina-se na imagem de um rectângulo de guerra aberto a receber dois exércitos em fúria, psicologicamente estimulados a agir sem dó nem piedade, socialmente acicatados a não deixar passar um erro ao opositor, cientificamente apetrechados para demonstrarem a sua razão até ao absoluto e, daí, a mais enfatizarem ainda o desvalor do adversário e o ódio que, por isso, ele lhes merece. Pior de todos os problemas: a batalha não termina aos noventa minutos, começa nesse momento a reger-se pelas regras mais implacavelmente antagonizadoras. À saída do estádio recrudescem os motivos da disputa e durante a semana esgrimem-se com acicate as vinganças. Depois da saída do estádio e durante toda a semana analisa-se, comenta-se, revê-se, insiste-se nas falhas, recalcitra-se a divergência, transformada numa obsessiva fúria. Justificam-se os insucessos revendo-se à lupa os pormenores (e os argumentos). Atiram-se as culpas para um bode expiatório que na fracção de segundo não foi capaz de ver o erro que todos os milhões de tele-espectadores comprovam através de sofisticadas tecnologias. Tomam-se os erros do juiz como deliberadas culpas de desonestidade. Pior que isso, verifica-se que muitas vezes a desonestidade existe mesmo. Pior ainda, ignora-se ou esconde-se que ela existe, quando convém. E, máximo dos máximos, os mesmos que compram a desonestidade hoje apressam-se amanhã a lamentar-se vítimas dela.
– É um circo… – compreendia o médico.
– Um circo que tem na arena os privilegiados e nas bancadas os mártires. E são os da arena quem resolve apontar para cima ou para baixo o polegar e assim ditar a sorte dos que estão na bancada. Tudo isto, por meio de exércitos que têm por mercenários os generais e por voluntários os peões. Tudo numa guerra em que a ética militar de "glória aos vencedores, honra aos vencidos" é arrogantemente substituída pela soberba dos vencedores contra o vexame dos vencidos.
– Pois é… E tudo isto veio a propósito da guerra – concluíu o médico, olhando o relógio, ao mesmo tempo que levantava o auscultador do telefone para perguntar à recepcionista se as consultas estavam a ficar atrasadas.
Guilherme pediu desculpa por ter sido inoportuno. O médico respondeu-lhe que não senhor, nada disso, e enquanto passava a requisição para os exames foi adiantado as despedidas, dizendo-lhe que haviam de se encontrar mais vezes.
Voltou ao médico uma semana mais tarde, para lhe mostrar os resultados dos exames, que lhe levou mudos no sobrescrito original. O antigo condiscípulo recebeu-o sentado à secretária, com um “ora viva!” que quase lhe despertou vontade de iniciar conversa. Antes de abrir o envelope, o médico disse-lhe, com um certo ênfase, que admirava a “solidez” (chamou-lhe assim) das ideias que ele lhe tinha manifestado na breve conversa da consulta anterior e perguntou-lhe se nunca tinha experimentado escrever. Guilherme respondeu, dissimulando a timidez mas com a naturalidade que conseguiu dar à voz, que sim, que de vez em quando rabiscava umas ideias, que tinha uma certa paixão pela poesia e que se entretinha a discorrer umas palavras em rima livre, nada que algum dia se atrevesse a dar a ler, era mesmo só para si mesmo, um mero passatempo para guardar pensamentos que lhe surgiam. O médico mostrou-se alegrado e admirado, que tivesse paciência mas tinha de lhe mostrar uns escritos, que poesia afinal interessa a todos, que haviam de proporcionar um encontro para se poder desfrutar da poética veia do amigo, que pela solidez das ideias que lhe tinha demonstrado não havia de ser coisa de desprezar. Guilherme sorriu, mais com vontade de deixar cair a conversa – e o sorriso foi, nessa medida, eficaz. Com o correr da conversa, acabou por mal saber o que vinha nos resultados dos exames, mas isso não foi grave, porque ao outro bastou um soslaio para poder tranquilizá-lo, que estava tudo dentro da normalidade.
Três dias depois o médico telefonou-lhe à hora do jantar. Tinha ficado a pensar na última conversa e queria pedir-lhe que preparasse dois ou três dos seus poemas, para os ler numa reunião de amigos mais íntimos no clube, que nisso fazia muito gosto e os amigos lhe tinham manifestado a mais benigna curiosidade de trocarem ideias em matéria que afinal interessa a todos, etc.. Guilherme não soube como fugir ao convite, ficou embaraçado quando desligou o telefone e consultou a mulher sobre o que fazer. – Porque não? – respondeu-lhe ela prontamente – Ao menos dás a conhecer a tua poesia a quem com certeza ta sabe compreender e, quem sabe, ainda lhe vê um valor que tu não queres ver-lhe, e depois tens tudo sempre tão fechado contigo mesmo! Ficou a pensar no embaraço que havia de sentir entre gente que não conhecia, vinha-lhe um frio na barriga quando se imaginava a entrar no clube e nos olhares dos outros, mas ao mesmo tempo ocorria-lhe que não podia exagerar na timidez e que a mulher tinha a sua razão.
Na sexta-feira à noite foi ao clube, de que só conhecia a porta do lado de fora. Foram efusivos todos os convivas, que o médico lhe foi apresentando à medida que chegavam. Ao café da chegada, o antigo condiscípulo lembrou a gentileza de Guilherme em estar ali e confessou a sua expectativa por ouvi-lo dar-lhes a sua poesia a conhecer. Guilherme ainda disse que declamar era arte que nunca experimentara, mas ninguém lhe deixou aberta para esboçar uma esquiva mais justificada. Junto do bilhar, um dos convivas acabado de chegar perguntava a outro pelo carro acabado de comprar e o facto tornou-se motivo da jocosa interpelação de outros, a ponto de num ápice o tema da conversa de todo o grupo se ter tornado nas peripécias rodoviárias de serôdios ases do volante. Guilherme aguardava num quieto silêncio o esgotar daquela conversa, mas a verdade é que ela concitou um animado interesse de todos. Uns instalavam-se mais acomodadamente nas poltronas distribuídas pelos cantos, outros aproximavam-se da mesa de bilhar, e a conversa automobilística prosseguia e prosseguiu. Começou entretanto a transmissão de um jogo de futebol na televisão e as atenções, a princípio distraídas nuns relances com episódicos comentários, foram tomadas por um golo precoce, que suscitou divergências de legalidade e a discussão inerente. Ao intervalo havia ironias disparadas a contra-adeptos e refinadas exegeses dos principais lances. Veio a continuação, e chegou o final da partida, e a animação à volta do dito espectáculo aquecia. Por volta da meia-noite, Guilherme começou a ensaiar mentalmente uma retirada, pois que lhe parecia muito pouco propício à poesia o dissipar da discussão futeboleira e o relaxamento que em consequência se ia espalhando pelos cadeirões. Pensou na promessa de ajuda a um companheiro de trabalho para a manhã seguinte – e essa foi a razão que invocou junto do médico para pedir que a revelação dos seus poemas ficasse para outro dia. Dado o ponderoso compromisso, a explicação foi aceite. Um sujeito de pose elegante e voz cava ainda rematou com a adiada curiosidade de ouvir a poesia do convidado, aproveitando para se declarar apreciador dos versos, de “um belo soneto”, que achava a suprema arte de versejar com “rima perfeita, métrica certa e a síntese de uma ideia em duas quadras e dois tercetos!”. – Um soneto, pois – houve quem secundasse, reforçando o desprazer pelos versos de rima livre, “semeados ao vento”. O médico ainda perguntou a Guilherme se incluía sonetos nos seus escritos, e perante a suspensão do embaraçado convidado o cavalheiro de voz cava rematou: – Se não costuma fazer sonetos, tem de um dia experimentar…Com isto se fizeram as despedidas.
Guilherme estava para almoçar quando o médico lhe telefonou, dando-lhe conta de que à saída dele, na véspera, se tinha comprometido com os membros do clube a marcar desde logo um novo encontro, expressamente dedicado à poesia que afinal tinha ficado adiada por motivo do compromisso de ajuda ao colega, que tinha de ser para breve, que tinham todos sugerido o fim de semana seguinte, porque não ao sábado, com maior liberdade de horas para todos.
A meio da semana, Guilherme desencontrou a volta do seu passeio nocturno para passar à porta do clube. Sabia ou presumia que estivesse fechado, e estava, donde ter-se questionado porque lhe teria vindo aquela quase necessidade de por ali passar. Parou uns metros a seguir e sentiu que não seria capaz de repetir o serão da passada sexta-feira. Para mais, os seus poemas de rima livre haviam de estar longe dos sonetos por que os outros esperavam. Lembrou-se de Camões e Florbela – e franziu o sobrolho.
Mal acabou de jantar, no sábado, saíu, desta vez sem grande entusiasmo da mulher pela nova reunião no clube dos amigos do médico. Uma meia hora depois, estava de regresso a casa, e com ar de poucas palavras foi directo à mesa em que tinha os seus papéis.
Sentou-se, fechou os olhos por um momento e de uma penada escreveu:

Morre-me no silêncio esta canção
Resolve-se-me no ar este abraço
Esvai-se-me fugaz este cansaço
Perde-se-me este sorriso no chão

Cingia em tal furor ainda agora
No ingénuo imaginário deste peito
Um êxtase afinal de tanto feito
Que em nada se me fez esta demora

Prostrado aquele riso que inventei
Fui-me ou nasço do nada que ficou?
Já tão pouco interessa se o sei!

Nada-muda a balada que entoei
Que importa ser vazio o que me dou
Se a ele já inteiro me entreguei?



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António
(Só)



Quando chegou à sua pequena cidade do interior alentejano para começar a carreira de médico na saúde pública, António era bem conhecido de todos e a comunidade dentro e fora do hospital tinha por ele uma simpatia quase instintiva. Transportava consigo aquela aura que parece acompanhar os homens que toda a gente sabe terem nascido no meio de duras dificuldades e crescido por entre contrariedades injustas mas que conseguiram inverter a sorte e chegar ao conforto ou ao relevo social, sem ceder à memória dos dias nefastos, como quem se mostra capaz de transformar todos os obstáculos em estímulos para enfrentar o destino. A expressão de olhar sereno e compreensivo que naturalmente dedicava a quem o rodeava parecia vir-lhe da confiança com que sorvia a vida com uma facilidade que despertava admiração e inveja.
Nascera, pelos anos de mil novecentos e cinquenta, de um pai de temperamento sóbrio, rendeiro rural humilde que chegara a casar com a filha do abastado senhorio e só por isso fôra deserdado pelo sogro, e não só por isso notado entre os de classe social mais elevada pela firmeza de palavra e pela força com que encarou duas tragédias que a vida lhe trouxe de uma só vez: foi vítima de uma gigantesca fraude de um senhor engravatado do grémio da lavoura, que desfalcou a instituição e deixou a braços com a banca dois ou três agricultores vinculados à sua própria honra por assinaturas que lhes tinham sido astuciosamente extorquidas em letras comerciais de que não tiveram qualquer proveito; e na época em que passava as noites em claro para salvar o compromisso da sua assinatura, atirada ao chão da praça pública pelo burlão, que entretanto se tinha posto a salvo na Alemanha, caíu-lhe a mulher à cama com uma doença que a neurologia nunca conseguiu explicar e que lhe devorou trabalho e penhores dos melhores anos da vida, enquanto os quatro filhos cresciam privados de quase tudo menos do ensino, em que eram sempre dos melhores. António, o mais novo, não teve senão no dia da primeira comunhão um fato que não tivesse já servido aos irmãos, comeu desde os sete anos refeições que ele próprio confeccionava com a irmã, foi enfermeiro da mãe dia e noite até que partiu para estudar na universidade e teve o primeiro brinquedo quando, já com catorze anos, o padrinho o levou pela primeira vez a Lisboa, como prémio da sua distinção no exame do quinto ano dos liceus – e recebeu-o de modo tão estranho quanto o contraste da caixa de lego na estante já fornecida de livros de química que semanalmente recolhia na biblioteca itinerante da Fundação Gulbenkian. Aos dezasseis anos entrou no curso de medicina, com a férrea determinação de um dia curar a mãe e no mês em que se instalou em Lisboa para estudar já tinha começado a trabalhar duas horas por serão no Instituto Nacional de Estatística e aos domingos na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa a procurar nas matrizes do totobola a sorte dos apostadores que em todo o país sonhavam em cada semana mudar de vida no domingo à noite.
No final do curso, um catedrático fez-lhe saber que a faculdade de medicina abria às portas à elevada classificação da sua formatura e tentou-o a ficar em Lisboa. Mas ele renunciou, porque estava fortemente ligado à pacata cidade provinciana e encantado pela vida simples dos homens para quem o tempo parecia ter parado. Durante os seis anos do curso tinha andado sempre a correr aos fins-de-semana para ir ao Alentejo animar as actividades que por lá já despontavam – e quando foi exercer a clínica já tinha cooperado em tudo o que eram associações, cooperativas e colectividades locais, com um entusiasmo que relegava para o esquecimento os avanços que ia tendo na faculdade. Quis dedicar-se à medicina pública em exclusividade, usando o apanágio da geração a que pertencia, desprezadora do dinheiro e da predominância social, às vezes de forma que à primeira vista parecia ostensiva mas que na verdade era resultado de uma convicção funda e de um amor sincero à comunidade em que facilmente se integrava. Tornou-se médico voluntário de uma associação de luta contra a pobreza, que ajudou a fundar, e dava apoio gracioso aos dois lares de idosos do concelho, mas a sua cidadania estendia-se a agremiações como o grupo de música etnográfica ou o clube de desporto jovem. Aparentava uma energia que não se sabia de onde lhe vinha, sobretudo porque parecia estar sempre de bom humor, não regateava o seu tempo a nada nem ninguém e anuía a qualquer projecto novo para que o convidassem os colectivos que por ali iam nascendo. No entanto, andava pelo meio de tudo isso discretamente e dispunha-se a todas as tarefas para que fossem necessários voluntários. Por essa mistura de facetas do seu carácter, os concidadãos consideravam-no e isso compensava-o suficientemente.
Mas António tinha um fraco: a desmedida paixão por uma mulher. Casou com ela quando eram os dois muito novos e depois de um namoro já de si atribulado. Ela era ainda pouco mais que uma menina, de uma família que misturava um resíduo da aristocracia industrial do princípio do século com uma pequena burguesia cheia de aspirações de sucesso social, cara bonita de um grupo de jovens chiques alinhados num círculo um tanto fechado, a que ele só tinha acesso por via das iniciativas culturais que constantemente fomentava e que no meio da pequena cidade tradicional tinham sempre muita aceitação. O carácter activo e empreendedor dele e os conhecimentos de tudo o que era novo nas artes do espectáculo, então muito em voga entre a juventude, fizeram dele uma estrela aos olhos da rapariga rebelde e sequiosa de aventuras – e o namoro surgiu sem quase haver tempo de conquista. Ele estudava então em Lisboa, o que o tornou ainda mais especial para ela, que tinha a capital como o centro do mundo e o último dos seus objectivos. Teve por ela uma paixão inflamada, que ela dizia corresponder e que durou para além do dia em que ele, ainda estudante mas já com um emprego que lhe permitia autonomia, lhe pediu que casassem. A família dela escandalizou-se à primeira notícia, mas acolheu-o bem, em vista da sua mais que certa formatura em medicina e do prestígio da profissão futura, ainda por cima garantido pelo notório da inteligência e do bom gosto do jovem estudante-trabalhador. E ele investiu toda essa inteligência e o bom gosto que foi apreendendo dela para tornar o casamento feliz. E assim foi durante alguns anos.
Ciente do orgulho que a mulher tinha na sua carreira médica e no sucesso do seu nome no meio, António trabalhava dia e noite e, mais do que isso, criava laços fundos com os doentes e a comunidade. Adorava a profissão e usufruía o estatuto que dela obtinha junto da mulher e dos amigos que ela seleccionava. Mas esse predicado acabou por lhe ser fatal: esquecia-se do dinheiro e dos lucros que podia retirar da sua actividade de clínico particular, desprezava o poder de influência que podia usar junto das pessoas mais bem situadas na hierarquia social, abominava o glamour e a moda chique que na época se tornavam uma atracção vertiginosa para os homens da sua idade e condição social – e a mulher sentia falta de tudo isso.
Nos primeiros anos corria quase tudo bem. Tiveram dois filhos quase de seguida e, para se dedicar à família, ela abandonou os estudos quando lhe faltavam apenas dois anos para a licenciatura universitária. As crianças, um casal de bonecos entre si separados por menos de dois anos, absorviam quase por completo a vida de casa e os tempos livres do hospital eram deliciosamente agitados à volta delas. Brincavam em conjunto durante quase todo o tempo que passavam em casa e isso satisfazia ao mesmo tempo António, que adorava espojar-se no chão com os carrinhos do filho mais velho e acudia com satisfação ao pedido de mais um conto ao deitar, e a mulher, que não se cansava de inventar novas brincadeiras e toilettes infantis para eternizar a diversão com os pequenos. Os amigos diziam, com o seu quê de trocista, que pareciam uma daquelas famílias dos filmes cor-de-rosa em que tudo decorre entre sorrisos e ternuras – e na verdade esses foram anos que praticamente só deixaram recordações tranquilas. Mas com a entrada das crianças na escola vieram dias de tédio para a mãe, que não tardou a mostrar-se cansada da vida provinciana que sempre detestara. Pior do que isso, à medida que ela sentia um vazio pela pacatez dos dias na cidade de horizontes apertados, ele reforçava o apreço por esse mesmo recato de costumes, que não se cansava de simbolizar no prazer de andar pela rua e tratar todas as pessoas pelo nome próprio. Era um modo de vida que o envolvia tanto a ele quanto a desesperava a ela.
António distraía-se da falta de objectivos da mulher, tão embrenhado andava com os seus pacientes, tão entusiasmado com as actividades de vizinhos para que nunca deixavam de o solicitar, tão confortado no seu ego pela atenção que os conterrâneos lhe manifestavam, sobretudo pela sua permanente disponibilidade para acudir a toda a gente e a toda a hora (dizia sempre e reafirmava que o principal hobby dos tempos que o hospital lhe deixava livres era ser útil aos amigos – e queria contar por amigos todos os que se aproximassem da sua vida). Enquanto isso, a mulher via a sua própria realização pessoal não só inviabilizada pelos laços com que o marido se abraçava ao quotidiano, mas principalmente ofuscada pelo brilho que socialmente lhe era dado a ele e, sobretudo, porque cada vez mais ela era reconhecida e tratada simplesmente como a mulher dele. A plenitude da integração dele naquele meio acentuava o contraste com o desprazer dela pela terra em que parecia estar condenada a ficar presa e pelas pessoas com quem tinha de se cruzar todos os dias, sempre as mesmas. Tão inebriado com aquela vida foi ele deixando passar os anos, que não se dava conta de que ela estava cada dia mais desinteressada do quotidiano, mais enfadada dos pequenos círculos em que se movia, mais triste com a sua própria existência.
Quando deu pelos filhos crescidos e a caminho de sairem de casa para fazerem o ensino superior, António sentia que já não tinha a mulher ao seu lado. Não tinha havido propriamente uma crise no casamento, mas ele dizia para consigo mesmo que um homem sabe quando ainda tem a mulher, e ele sabia que já não era o dono do coração dela. Sentia-o com tristeza, aquela tristeza que um homem finge desprezar quando mais se sente agarrado por ela e incapaz de fazer reverter as suas causas. Vinha-lhe um amargo de boca ao lembrar os tempos em que a mulher o via como mais que um modelo, um verdadeiro ídolo, e sabia que esses tempos tinham passado e não conseguiria recuperá-los. Pior que isso, era evidente que aquilo que principalmente lhe fizera perder a paixão da mulher era o preço do sucesso dele nas múltiplas facetas da sua vida profissional e social – como que sentindo-se preterida pelas paixões que o marido facilmente nutria pelas actividades em que não parava de se envolver, ela tinha deixado de o acompanhar nos sonhos, nos objectivos e até nos gostos, e parecia até caprichar em salientar o que tinham de diferente: falava a toda a hora do romantismo daqueles que sabem conduzir a vida pelos prazeres mais mundanos e ligeiros, elogiava os amigos da sua geração que nunca tinham deixado implicar-se em responsabilidades sociais, era ostensiva no desprezo por uma cultura intelectual e cívica que sabia apaixoná-lo a ele. Prendia-se aos programas mais fúteis da televisão e dormia até à hora de almoço, deixando-o muitas vezes só com os filhos à hora da refeição, passando mesmo a ser preocupação dos filhos aquela abulia da mãe. Foi nessa ocasião e apesar de tudo isso que ele mais claramente se apercebeu que estava muito dependente dela afectivamente, porque as atitudes de distanciamento dela causavam-lhe ao mesmo tempo revolta e vontade de ceder aos gostos e às vontades dela só para lhe agradar. Mas tudo lhe fazia ver que era tarde para refazer uma vida afectiva cujo definhamento tinha raizes já fundas e complexas: ela tinha perdido a oportunidade de afirmar uma personalidade autónoma e ele sabia que esse sacrifício tinha sido feito em nome do crescimento dos filhos e da estabilidade da família, mas principalmente a favor da realização dele como médico e como cidadão. O preço da plenitude que ele conseguia junto dos seus doentes e dos incessáveis projectos que queria ver crescer na sua terra, pagara-o ela com a renúncia à afirmação da sua própria identidade.
O filho mais velho foi estudar para Coimbra na época em que tudo se complicou na vida de António com a mulher. Ela corria psiquiatras e psicólogos à procura de um combate às sucessivas e crescentes depressões e ele sentia-se cada vez mais frustrado na eficiência do seu auxílio ao reencontro da realização dela – sabendo que muitas vezes a preocupação que tinha pelo vazio dela era como que uma forma cómoda de se penitenciar pelo egoismo com que condicionara as opções de vida dela. Quando ela, já em desespero de procura de objectivos para uma vida cada vez mais vazia, decidiu voltar a estudar para concluir os estudos que deixara a meio, ele bateu a todas as portas para lhe encontrar um emprego que a estimulasse, mas já o fazia sem fé e esquecia que mesmo nesse empenhamento em a ajudar acabava por ser ele a tomar a condução de uma luta que só faria sentido se fosse travada por ela própria e segundo os seus próprios pontos de vista. Entusiasmou-a a aproveitar os estudos de bioquímica que fizera até meio da faculdade, concorrendo a um lugar de preparadora num laboratório químico dirigido por um velho amigo, mas ela, ao fim de dois ou três meses de ter começado o trabalho, desencantou-se com a falta de horizontes das tarefas que lhe davam. De cada vez que uma nova experiência se gorava, ela afirmava vezes sem conta que se sentia falhada e incapaz de fazer o que quer que fosse na vida – e ele bem sabia que essas lamentações dela eram mais do que esconder as culpas próprias, tinham sempre uma ponta de inculpação dele por tê-la impedido de na idade certa abandonar o pequeno meio provinciano que detestava e procurar a vida da grande cidade que sempre a tinha encantado.
Com o passar dos anos, António foi-se habituando a ver a mulher desgostada com a sua terra e a gente que para ele pareciam ser o maior sentido da vida. Mas nunca desistiu de lhe apontar soluções para a vida profissional que ela achava indispensável conseguir para superar as sucessivas depressões e o constante desapontamento por sentir a vida passar sem a oportunidade de se dedicar a algo que a realizasse. Aceitou todas as ideias que a ela lhe iam surgindo, por vezes efemeramente, desde a procura de empregos completamente desajustados aos seus gostos e à sua preparação, até simples actividades de entretenimento ou voluntariado, que ou não surgiam ou depressa a desencantavam. O ambiente entre os dois era pacífico, mas até nisso ela via um sinal de envelhecimento e de desaparecimento da chama que achava indispensável num casal. Entretanto, as flutuações do humor dela iam-se tornando uma constante e a afectividade para com o marido tinha-se transfigurado num sentimento simplesmente amistoso ou quando muito fraternal. Ele quase perdia a esperança de voltarem ao tempo de cúmplice aventura nos tempos livres ou nas escapadelas que no princípio da vida comum tinham dado tanta cor ao casamento. Via-a cada vez mais afastada, mais queixosa do destino que a prisão à província lhe reservava, mais desapontada com a sua própria vida e, por vezes, até mais azeda com tudo à sua volta. E lia-lhe nos olhos um desinteresse pela própria pessoa dele, que por vezes lhe dava vontade de tentar arrefecer o seu próprio coração, que, no entanto, sofria e desesperava cada vez mais. Determinou-se a aprender a ser um homem resignado, em nome da compreensão que entendia dever ao sofrimento e à frustração da mulher. Mas ela exuberava na manifestação dessa frustração – e muitas vezes dizia-lhe que ele nunca a compreenderia, porque afinal ele estava onde e como queria e por isso o que recebia da vida era, todos os dias, satisfação e realização.
No dia em que fez quarenta anos, a mulher de António anunciou uma resolução de mudança de vida, no que dizia ser a sua última oportunidade de ser alguém: ia associar-se a uma amiga que tinha em vista uma loja de modas em Lisboa, aproveitando uma oferta de trespasse que dava todos os sinais de ser um bom negócio. Ele ficou um tanto aturdido, perguntando à intimidade do seu próprio pensamento como conciliaria ela a nova actividade com a casa e a família, precisamente no ano em que a filha tinha que fazer o último ano da escola secundária. Mas não pôs obstáculos à ideia, talvez porque no fundo pensasse que seria mais um projecto para ficar pelo caminho. Mas não foi. Ante a aparente aceitação da ideia por parte dele, ela colocou-lhe frontalmente a questão da conciliação do seu empreendimento em Lisboa com a estabilidade da vida da casa na província – e ele apressou-se a tranquilizá-la e a argumentar todas as razões para ela não se preocupar com a família. O trespasse conseguiu-se e António reuniu as economias e um empréstimo que pediu no banco para viabilizar o arranque do comércio que em que a mulher se entusiasmara.
Foi, para ele, um ano a ferro e fogo. Projectou que no hospital cumpriria apenas as suas obrigações estritas, para ter tempo para acompanhar a filha, que tinha dificuldades com a matemática, como quase todos os jovens da sua geração, e precisava que ele a ajudasse na difícil organização do tempo de estudo, numa época em que parecia que as matérias escolares eram infindáveis e os estudantes precisavam de se consumir o dia inteiro na preparação do exame final e da desenfreada competição por mais uns valores na classificação para poderem ter acesso à universidade. Mas, como quase sempre acontece na vida, dava-lhe a impressão de que os doentes precisavam mais dele do que nunca, de que nas associações em que era voluntário surgiam necessidades mais prementes, de que em casa havia sempre qualquer coisa a reclamar mais atenção. Passava os dias num sufoco, que ainda acrescentava a impressão de desorganização em que via correr a vida. A mulher telefonava-lhe duas e três vezes por dia, a propósito dos inúmeros problemas que surgiam no arranque da loja e com frequência ele punha-se a caminho para ir a Lisboa dar uma ajuda na orientação das coisas e voltar a correr para no final do dia estar junto da filha. Dizia sempre que tudo se conseguia conjugar e que tinha prazer em participar na organização da vida da mulher, mas muitas vezes chegava à noite esgotado e não raramente sentia-se confuso e com a sensação de que a qualquer momento perderia o controlo de tantas tarefas que trazia sempre por fazer. Quando chegava o fim-de-semana e a mulher regressava, António fazia das tripas coração para não lhe dar a entender a ela a barafunda em que andava a vida dele, mas acabava sempre por lhe pedir desculpa por não conseguir libertá-la das preocupações da casa. E o ambiente nem sempre era tranquilo, porque havia sempre uma hora em que vinha ao de cima a desorganização em que ele trazia a vida doméstica – e quando chegava o domingo à tarde ela partia para Lisboa mais cansada do que tinha chegado no sábado.
Quando chegou o verão e a filha acabou os exames, António olhava para trás e sentia-se infeliz. A mulher andava animada com as idas e regressos à capital e os hábitos citadinos que tinha adquirido com facilidade, os filhos programaram férias em inter-rail juntos e no hospital havia menos movimento – mas ele perguntava-se para que servia tanta correria, tanta renúncia a uma vida em família, tantos compromissos económicos e tão pouca intimidade de vida. Nunca mais tinha feito os passeios pela serra, que dantes tinha como indispensáveis e dizia que lhe davam o oxigénio para viver; perdera o hábito de ir ao cinema, que durante tantos anos cultivara como forma de encontro com os amigos; e até a ida ao café, a seguir ao jantar, tinha deixado de fazer parte das suas rotinas. Só o trabalho e a simpatia dos doentes lhe iam dando conforto moral – mas até a dedicação ao hospital, que se tinha tornado quase uma obsessão, parecia então cansá-lo. Pensou em passar as férias em casa, aproveitando a liberdade de horários e de movimentos para recuperar leituras que ia adiando e dar uns passeios sem destino e sem marcação de tempo, mas receava que a mulher não prescindisse de um programa em conjunto, e os programas dela eram necessariamente longe de casa. Foi ela que acabou por sugerir-lhe que aproveitasse a pausa do verão para descansar do modo que mais lhe agradava, deixando-o à vontade para se ficar por casa, enquanto ela aproveitaria para fazer uns dias de praia na costa de Lisboa, com a sócia da loja. E António, sempre ávido de tempo e espaço para ficar só consigo mesmo, teve durante essas semanas pela primeira vez o sentimento de solidão, se bem que nunca o tenha manifestado ou admitido. À medida que a mulher se libertava a si própria e o dispensava, ele sentia que no seu próprio espaço emocional se enormizava um vazio.
Aceitou passar os últimos dias de férias com a mulher e a amiga. Quando lhe telefonou a convidá-lo para o fim-de-semana, a mulher confidenciou-lhe que a amiga estava a braços com uma crise conjugal já muito duradoura e ardia numa relação de amantismo com um homem que tinha namorado em jovem e que tinha acabado de se divorciar. António fez um esforço para esconder a sua estranheza pela maneira como a amiga resolvia o seu mal-estar com o marido e pela cumplicidade que adivinhava na mulher – como que a sentia a ela própria embotada pela traição que a amiga cometia contra o marido, silenciando-lhe um envolvimento com outro homem e não clarificando a vida com ele. Foi ao encontro delas, na sexta-feira à tarde, um tanto contrariado e sem saber que atitude tomar ante a revelação que a mulher lhe fizera. Ainda por cima disso, ia ficar instalado na casa da amiga e teria que lidar com o marido dela como se de nada soubesse, o que lhe tornou a viagem incómoda e enervante. Não teve afinal que resolver o embaraço, porque o amigo não regressou da viagem profissional em que andava e as duas mulheres, logo depois de o terem recebido e jantado com ele, dispensaram-no de as acompanhar na saída que tinham programado para a noite, compreendendo o cansaço da viagem que adivinhavam nele. Acabou por ficar a ler o jornal, enquanto a mulher e a amiga sairam, com a previsão de voltarem cedo e acabarem o serão com ele. Deu pela chegada da mulher quando era já de manhã, levantou-se pouco depois e, tal como logo ao acordar previu, passou o dia sozinho. Apanhou um cacilheiro e foi almoçar e passar a tarde na margem sul. Ao anoitecer, quando voltou a casa, encontrou as mulheres ainda em robe de chambre – e decidiu que nessa mesma noite deixaria Lisboa para voltar a casa, com o pretexto de que houvera uma emergência no hospital e precisavam dele.
Fez a viagem inquieto, apesar de estar uma noite temperada e limpa. Estranhava a indiferença da mulher ante a presença dele e, sobretudo, o frenesi com que ela se apressou a sair para a noitada, ainda ele mal tinha chegado. Questionou a sua própria ingenuidade acerca do entusiasmo com que ela se dedicava a Lisboa e prescindia de fazer as férias que sempre exigia dele, para ficar na capital durante o período em que tinha decidido fazer uma pausa no acompanhamento da loja. Mas parecia-lhe mesquinho questioná-la a esse propósito – seria o que lhe parecia uma infantil falta de confiança e teria certamente o efeito de a molestar, logo na época em que ela se via livre das depressões que ciclicamente a assolavam. Achou que andava em estado de fraqueza emocional e que uma noite bem dormida afastaria os fantasmas que lhe turvavam o raciocínio. Mas o sono acabou por fugir-lhe, talvez porque ao chegar a casa, quando telefonou para falar com a mulher, a amiga lhe disse que ela tinha saído e avisara que poderia voltar tarde.
A vida de António mudou completamente nesse final de verão. Lançou-se ao trabalho como que numa obsessão, que no hospital, passado pouco tempo, todos perceberam ser doentia. A filha tinha entretanto entrado na universidade e ele, sozinho na casa que começou a ter sempre desarrumada não obstante a diligência da mulher-a-dias, perdia os serões reclinado sobre o sofá em frente de uma ampla janela e por ali passava a noite as mais das vezes. A mulher telefonava-lhe com frequência, mas ele apressava sempre a conversa, tentando criar nela a impressão de que tudo decorria rotineiramente – mas na verdade sentia embaraço em falar com ela, incapaz de dar conta do sentimento de insegurança na fidelidade dela mas não querendo deixar passar a impressão de que tudo estava como dantes. Arrepiava-se de pensar como a encararia quando se encontrassem pessoalmente e sabia que isso inevitavelmente aconteceria muito em breve. Ao mesmo tempo que instintivamente lhe subia uma espécie de revolta que receava se viesse a revelar injusta, compreendia intimamente que a mulher poderia afinal ter encontrado não mais que um refúgio para a longa solidão e a insidiosa falta de amor-próprio que ao longo da vida acumulara, e isso parecia-lhe nada mais que humano. Torturava-se obsessivamente com a ideia de que tinha sido ele, bem vistas as coisas, quem propiciara o desnorte da mulher e chegava a vê-la como a mais infeliz das vítimas de todo esse processo de vida. Passou nisto duas semanas em que o tempo tanto lhe parecia interminável, pela ansiedade de pôr tudo a claro, como se lhe deparava fugaz, à vista da aproximação do dia em que ela havia de voltar a casa e ele teria fatalmente de decidir que atitude tomar diante dela. Mas um dia a sócia da loja marcou, com uma certa solenidade, uma conversa com ele, adiantando-lhe que a mulher tinha de novo consultado um psiquiatra e confirmado que caíra em grave depressão.
Logo que a amiga começou a conversa, António teve a percepção de que a doença da mulher e aquele encontro marcado pela amiga tinham motivos mais fundos, motivos que lhe diziam respeito a ele. Ouviu a amiga com a pose mais serena e compreensiva que conseguiu e foi ele próprio sugerindo explicações para a crise da mulher, de tal modo que ela acabou por não ter dificuldade em lhe contar: a mulher tinha-se apaixonado, havia já anos, por um músico que fizera uma digressão pela província e estivera em casa deles, um italiano que vivia em Lisboa e dava espectáculos em bares e clubes nocturnos a cantar e a tocar piano. Ela veio a aproximar-se dele mais tarde, reencontrou-o em Lisboa numa ocasião em que lá passara uns dias e a ideia da loja tinha sido uma simples ajuda para conseguir juntar-se a ele; dormira na casa dele a maioria das noites que passara em Lisboa e tinha-se disposto a ir viver definitivamente com ele, mas quando lhe disse que pediria o divórcio a António ele demoveu-a; depois foi faltando aos encontros cada vez mais e finalmente tinha-a deixado sem esperança de voltar a encontrá-lo, apesar da insistência quase demencial com que ela lhe telefonava, o procurava e por todos os meios tentava aproximar-se dele, a ponto de lhe ter prometido que para o encontrar deixaria o marido sozinho em casa da amiga no fim-de-semana que ele foi a Lisboa para terminarem juntos as férias, só para lhe demonstrar a sua fidelidade de amante. António ouviu o relato da amiga com tal silêncio que ela acabou por confessar-se embaraçada por não saber se tinha feito bem em lhe revelar a aventura da mulher, e no fim pediu-lhe que mantivesse a conversa em absoluto segredo. Nem a isso ele respondeu – agradeceu-lhe o cuidado, levantou-se e saíu.
Tinha ido a Lisboa, numa fugida, para comparecer à conversa com a amiga. Saíu do restaurante onde a tinha encontrado enquanto a mulher tinha saído para procurar um amigo (só durante o jantar soube que esse amigo era afinal o amante e que ela certamente ficaria por casa dele) e decidiu ir logo para o Barreiro e esperar pelo comboio que saía por volta da meia-noite e o faria chegar a casa quase de manhã. Na estação comprou vários jornais, depois umas revistas de leitura mais distraída, mas não conseguiu ler nada. Passeou nervosamente pelo cais, meteu-se na carruagem mal o altifalante anunciou a linha de que saía o comboio, instalou-se com a intenção de dormitar, mas voltou a levantar-se e a sair e a deambular pelo cais. Fez a viagem sentado no bar, fumando desalmadamente e devorando bebidas que o não satisfaziam nem chegaram para o embebedar. Pensou na vida toda que tinha passado com a mulher, sentia que devia arrepender-se de toda a dedicação que tivera por ela, mas logo a seguir descobria que no íntimo só desejava que tudo voltasse a ter o romance que nos primeiros anos tinham tido juntos. Chegou a casa numa agitação doentia, trémulo dos nervos e do abuso de álcool, confundido sobre o que na verdade queria fazer dos seus sentimentos e profundamente infeliz por querer ver a conduta da mulher com compreensão ou indiferença mas não conseguir deixar de desejar que tudo não passasse de um pesadelo.
No hospital estranharam que António tivesse pedido novamente férias, tão seguidas às anteriores. Tinha gozado duas semanas não havia um mês e nunca antes tinha usado por inteiro os dias a que anualmente tinha direito. Mas ele sentia-se incapaz de trabalhar, não porque precisasse do tempo para prolongar a sua já fastidiosa reflexão, mas porque não conseguia concentrar-se, impacientavam-no as palavras de todos, incluindo as dos doentes, não conseguia comer mais do que uma sandes incompleta a meio da tarde, fumava descontroladamente, arrastava-se com uma sonolência doentia e as forças faltavam-lhe permanentemente. Sabia-se a soçobrar a uma doença cujos sintomas conhecia e cujos efeitos adivinhava já próximos. Enchia-se de vitaminas e calmantes, mas bem sabia que isso não lhe bastaria – precisava de forçar o sono, descansar, esquecer as ideias obsessivas que o dominavam. Atormentava-o a certeza de que a mulher voltaria a casa a qualquer momento e de que não saberia como conduzir-se numa conversa que fosse ao mesmo tempo firme na indignação que queria manifestar e serena na avaliação do que deviam ambos fazer da vida em comum a seguir. Ela acabou por poupá-lo a maior demora nesse sofrimento, porque lhe apareceu em casa a meio da semana, mais cedo do que seria de esperar.
Foi um encontro azedo. Ela chegou de mau humor, como que a pressentir um ambiente pouco hospitaleiro, pela evidente forma com que ele evitara falar-lhe nos telefonemas que ela nunca descuidava. António recebeu-a com ar carregado, que no íntimo tinha que intencionalmente forçar, e isso despoletou um diálogo áspero. Ainda mal a mulher se lastimava pela recepção tão pouco cordial, António lançou-se a interrogá-la secamente sobre o que esperava ela da vida com ele. Disparou perguntas em série, aguardando cada resposta com uma frieza inquisitorial que descaradamente a queriam conduzir a confessar a infidelidade ou a ser apanhada em mentira logo de seguida. Ela resistiu com negativas a tudo quanto ele abertamente questionava em tom moralista – e ele não se conteve em desenrolar tudo o que tinha sabido da vida que ela lhe ocultava. Assolada por perguntas tão incisivas e revelações tão frontais, ela acabou por confessar-se e tentou esboçar justificações e arrependimentos. Mas ele já não era capaz de a ouvir, misturava as acusações com as suas próprias lamentações e sublinhava a gravidade da deslealdade dela, do silêncio em que tinha passado por tudo e do que ele significava de traiçoeiro e sórdido. Quando ela, já sem oportunidade de proferir palavra ante a torrente de desagravos dele, teve de manter-se calada, ele sentenciou que tratariam de tudo o que convinha à separação e exigia que o fizessem de imediato. A conversa acabou quando ele já não tinha mais para dizer. Fez-se um silêncio grave, ela recolheu ao quarto e ele ficou toda a noite a fumar e a beber. A avalanche de queixas com que extravasara a sua indignação, em lugar de funcionar como um desabafo que o acalmasse, produzia-lhe uma sensação de revolta e infelicidade por sentir-se injustamente vítima de uma sorte cruel. Parecia-lhe ter necessidade de sentir pena de si próprio e, à medida que se apercebia disso, pensava que deveria evitar esse sentimento, mas não resistia a mergulhar nele ainda mais. Apetecia-lhe sair e divagar pela noite, mas achou que essa poderia ser uma atitude equívoca. Ficou mais uma noite acordado, programando até ao mais ínfimo pormenor a separação da mulher, que queria consumada sem demora.
Tiveram um dia de absoluto silêncio, cada um confinado ao compartimento a que se tinha remetido durante a noite. Quando chegou a noite seguinte, ela tentou aproximar nova conversa, primeiro sentando-se ao lado dele em silêncio, depois oferecendo-se para lhe cozinhar algo que lhe apetecesse para quebrar um jejum tão prolongado e finalmente, ante o persistente distanciamento dele, abordando directamente o assunto do futuro de ambos. Pediu-lhe que a deixasse dar-lhe uma explicação de tudo o que tinha ocorrido de anormal na vida dela e insistiu em fazê-lo mesmo após ele ter manifestado que isso era já indiferente. António ouviu-a sem mudar a expressão cabisbaixa e de sobrolho pesado – e quando pressentiu que ela já não encontrava mais para dizer limitou-se a responder que estava cansado de pensar e não era capaz de lhe dizer mais nada. Ela manteve-se ali, calada como ele mas sem mostrar a mínima intenção de se afastar. A meio da noite foi ele quem se levantou do cadeirão a que parecia agarrado – disse mansamente que precisava dormir e recolheu-se no quarto de hóspedes. Mas essa segunda noite de silêncio foi o desfecho da embaraçosa indefinição em que se mantinham: no dia seguinte, António tomou a iniciativa de se dirigir à mulher e, com a calma que sempre tinha depois de uma noite bem dormida, disse-lhe que a vida o ajudara a compreender que as pessoas não são mais do que a mistura das suas forças e das suas fraquezas, declarou-se disposto a fazer o esforço que fosse preciso para aceitar e esquecer a infidelidade dela, pediu-lhe que entendesse que isso poderia demorar algum tempo e não ser fácil e deu-lhe o tempo que ela precisasse para, ela sim, decidir serena e livremente se o futuro de ambos seria em comum ou em tranquila separação.
A tarefa seguinte foi aprender a recomeçar. António sabia que não lhe seria fácil varrer da memória as dúvidas e as interrogações que nos últimos dias se lhe encastelavam no pensamento – desde quando perdera a mulher, até onde tinha ela chegado na paixão, quantas palavras dela que no passado lhe pareceram estranhas não teriam já algum significado oculto, quantas vezes a depressão dela teria outras causas que não aquelas que ele tentava combater, o que teria acontecido se o amante tivesse aceite que ela saísse de casa para se juntar a ele… e, sobretudo, o porquê de tudo. Determinou-se a descobrir as coisas simples do quotidiano que teria de corrigir para ser uma boa companhia, arranjou distracções para lhe ocuparem os tempos livres e o livrarem de remoer sobre o amor-próprio ferido, auto-convenceu-se de que tinha sido magnânime ao vencer um arquetípico preconceito da sociedade machista em que fôra criado e por isso devia ter força para prosseguir nessa atitude, meteu na cabeça que a compreensão pelo deslize da mulher só podia orgulhá-lo. Mas de vez em quando vinha a dor, a dor inexplicada mas muito forte, de saber que tinha sido preterido, de que a sua forma de amar tinha sido imperfeita ou ineficiente perante o amor espontâneo que a mulher foi descobrir mais longe. E, depois, vinham as dúvidas insidiosas – até que ponto a mulher teria esquecido a paixão que a entusiasmara a deixar toda a vida para trás, até quando ela resistiria à lembrança dessa paixão que pela certa lhe teria deixado doces recordações, até onde iria a verdade do que ela lhe dizia agora, ao jurar-lhe que tudo tinha sido um desvario… Por vezes parecia-lhe que não havia de ter força para encarar tanto sofrimento e não raramente questionava-se se a luta que travava contra si mesmo valeria a pena. A verdade é que a mulher se transfigurara em ternura, tinha o cuidado de todos os dias lhe agradecer a confiança que ele apostava nela, afirmava-se feliz pela oportunidade de apagar um passado recente que reconhecia negro, jurava-lhe que havia de saber reconquistá-lo e fazê-lo feliz ao lado dela.
A vida de António mudou muito. Durante dois ou três anos lutou contra a memória, contra as dúvidas do passado, contra a insegurança de si próprio. Foi-se desligando da obsessiva procura de refúgio no trabalho, inventou maneiras de recriar romance no dia-a-dia com a mulher, organizou festas de amigos em casa, aproveitou cada folga de mini-férias para viajar com a mulher, empenhou-se nos faits divers que lhe agradavam a ela. Teve muitos momentos de desânimo perante a força esmagadora das memórias do tempo em que sentira a mulher fugir-lhe, mas sempre se retemperou – e o tempo foi-lhe dando a serenidade para aceitar que a vida tem por vezes curvas sinuosas, mas nenhuma é definitiva. A vida foi normalizando e a mulher dava-lhe mais confiança em cada dia que passava. Demorou anos, mas a lembrança da tortura que tinha sido a descoberta da infidelidade da mulher foi-se diluindo nas imagens ternas e construtivas que se acumulavam na vida de ambos. O sobressalto na vida do casal foi-se tornando coisa do passado e a idade dos dois, mais a maturidade dos filhos, ajudaram a relegar para o fundo da memória os dias difíceis da dúvida e do sentimento de traição. Assim se foi fazendo a vida e assim passaram anos, três, quatro ou cinco.
António pensava para si mesmo que tinha deixado de ser infeliz. Era certo que nos últimos anos ria menos, perdera intensidade a sua actividade de voluntário nas iniciativas que dantes o entusiasmavam e que agora, bem vistas as coisas, também surgiam menos, trabalhava no hospital com muito menos azáfama do que era característico em si (e tinha saudades dos momentos de plenitude que a medicina lhe proporcionara tantas vezes no passado) e, no fundo, habituara-se a esperar menos da vida. Mas era ao mesmo tempo um homem mais tranquilo, sentia que a idade começava a dar-lhe aquela serenidade que só os anos trazem, olhava para o cômputo de todo o tempo da vida e sentia que tinha conseguido muito daquilo com que sonhara. Os filhos davam-lhe um grande conforto moral, o mais velho já a trabalhar num jornal de grande tiragem nacional e a mais nova a concluir em Lisboa o curso de arquitectura – e isso parecia-lhe ser o que mais interessava a um homem que se abeirava dos cinquenta anos. Faltava-lhe a entusiástica actividade cívica de outro tempo, mas com a rotina do dia-a-dia novamente desanuviada e a auto-estima restabelecida, sabia que voltar às grandes paixões do voluntariado era apenas questão de tempo. Percebeu que voltara a estar de bem com a vida.
Enquanto o tempo ia desvanecendo as cicatrizes do coração e da consciência de António, a vida seguia o seu curso. Uma manhã, já o sol começava a queimar o domingo de Julho, ele regressou a casa, no fim de um turno que desde a meia-noite fizera no banco de urgência. Ia meter a chave à porta quando ouviu tocar o telemóvel – era um colega que lhe ligava da urgência do hospital. Havia um pedido à emergência médica, para um acidente de viação à entrada da cidade, e no banco de urgência não havia médico disponível para acudir de imediato à assistência na estrada. António recebeu as indicações e prontificou-se a ir para o local do acidente. Entrou apressadamente em casa para avisar a mulher, mas viu que ela não estava e ficou intrigado por sabê-la fora a uma hora a que ela nunca estava levantada. Sem tempo para conjecturas, correu para o sítio do acidente que fora chamado a socorrer. Os bombeiros tinham interrompido uma longa manobra de desencarceramento do jovem condutor de um dos carros que tinham colidido, porque o rapaz tinha começado a sangrar a ponto de ser necessária a ajuda clínica. Enquanto caminhava para lá, António passou pela frente do outro carro e, sabendo que nesse não havia feridos, olhou de relance. Ter-lhe-ia passado despercebido o contexto, se não fosse a imagem do homem que junto do automóvel prestava declarações ao polícia: era o pianista italiano que uma vez tivera em casa e que depois veio a ser o amante da mulher. António ficou primeiro parado, de olhar absorto e fixo e de seguida espreitou a medo para dentro do carro, como que intuindo num ápice o que ia encontrar – sentada ao lado do lugar vazio do condutor, com a cabeça encostada ao vidro da janela e segurando a testa com a mão, estava nem mais nem menos que a sua mulher, a mulher que supunha ter deixado no sossego da casa quando saíu para o turno no banco de urgência, a companheira que acreditara ter reencontrado depois de um humano desvario, a amada que havia já anos lhe tinha pedido uma oportunidade para reconquistar a confiança dele. Olhava-o com pavor, expectativa ou comiseração, quem saberia. António acudiu ao rapaz entalado na chaparia torcida e já inconsciente e, concentrado na manobra clínica, não deu conta da partida do carro em que a mulher e o italiano se foram dali.
Chegou a casa quando já era quase meio-dia, excitado e exausto, sem saber bem por onde gastara o tempo e revendo o encontro no local do acidente como se fosse um facto longínquo, tão adormecida lhe estava a consciência. Enquanto subia, lembrou-se das únicas palavras que lhe restavam claras na memória – as do graduado da polícia que lhe tinha descrito o choque dos automóveis como resultado do excesso de velocidade do jovem e desatenção do estrangeiro que, segundo tinha apurado, vinha de um encontro furtivo com uma senhora casada na pousada dos subúrbios.
Encontrou a casa sem sinais de haver gente e, embora só depois de alguma hesitação, correu todas as divisões e confirmou que a mulher não estava. Tomou uma bebida quente com um comprimido para aliviar a dor que lhe fazia latejar as têmporas e saíu, sem saber bem porquê ou para onde.
Caminhou, em passo nervoso, sem pensar em mais do que escolher o sítio em que fosse capaz de descansar, descansar a cabeça e descansar o corpo, se é que conseguiria conciliar o corpo exausto e a mente a fevilhar – com aquela necessidade de primeiro descobrir o ambiente propício para só depois arrumar as ideias, que tantas vezes se tem quando uma preocupação nos avassala da cabeça aos pés. Saíu da cidade e entrou pela mata adjacente à estrada, em direcção ao rio. Acomodou-se numa sombra à beira da água, primeiro sentando-se no chão e depois apoiando o cotovelo para melhor descansar a cabeça. Foi então, com os músculos finalmente distendidos e a dor de cabeça a aliviar, que sentiu que ia ceder ao cansaço e adormecer a qualquer momento. E chorou, convulsiva e irreprimidamente – e iludia-se que chorava pelos anos que tinha perdido no esforço para tudo compreender, para tudo aprender a superar, para nos mais detalhados pormenores se moldar ao que supunha ser o gosto da mulher que amara que nem um louco. Deplorava sobretudo a cidadania que tinha descurado ou mitigado em si mesmo, as instituições em que o seu voluntariado tinha faltado nos últimos anos, as pessoas a quem tinha deixado de acudir com a sua ciência e a sua palavra, ao arrepio do que fizera toda a vida e que tanta gratificação lhe devolvera. Pensava que essa era a principal perda, agora que o único amor que na vida alimentara por uma mulher se revelara, definitiva e inexoravelmente, não mais que uma inesgotável fonte de desenganos. Agora, ou voltava às actividades de voluntariado e cidadania que tinham dado o único sentido compensador à sua existência, ou não valia a pena recuperar a vontade de prosseguir.
Acabou por adormecer, pelo esgotamento físico e pela calma que o sol da tarde acentuara. Acordou ao crepúsculo, com o som do telemóvel, que inadvertidamente atendeu. Era a cunhada, irmã mais velha da mulher e confidente de sempre, que lhe dava notícia de que a irmã dormia desde a manhã em casa dela e que tivera com ela um longo desabafo: que nunca tinha conseguido esquecer o pianista italiano, que o tinha procurado por diversas vezes apesar de sempre rejeitada por ele, que tinha insistido em contactá-lo por meio de um telemóvel confidencial que mantinha escondido em lugar seguro, que o tinha enfim reencontrado e se lhe oferecera sem reservas e incapaz de resistir à saudade que o tempo tornara cada vez maior e mais dolorosa. António ouviu-a, sem proferir palavra, até que a bateria do telefone ficou sem carga e a comunicação foi providencialmente interrompida.
Sem imaginar que António não estaria em casa, a mulher entrou ao princípio da noite, ainda mal desperta do longo sono que durante todo o dia improvisara em casa da irmã. Depressa reparou que estava tudo como ela tinha deixado na noite anterior, à excepção da chávena meia de chá e da caixa de comprimidos que o marido tinha deixado na mesa da cozinha. Esperou pelo regresso dele, impaciente e receosa do reencontro, mas adormeceu encostada num sofá quando já amanhecia. Só no dia seguinte soube que ele não voltaria, pelos filhos que quase ao mesmo tempo lhe telefonaram para saber do que se passava, intrigados pela chamada que o pai fizera a cada um deles, dizendo-lhes telegraficamente que estava bem e deixaria de dar notícias por algum tempo, mas que não deviam preocupar-se com ele.
Durante dois dias, o desaparecimento de António tornou-se num mistério para a mulher, abafada no quarto em que a escuridão contrariava o sol abrasador de Julho. Depois, chegou de Lisboa o filho, que antecipou as férias de verão para trazer notícias que recebera do pai. Não disse à mãe, talvez nunca lhe tenha dito, que o pai tivera uma longa conversa com ele, daquelas de homem para homem. Incumbira-o de desfazer preocupações e o jovem encarregou-se da missão lindamente. Mas, ainda assim, foi a imponência do silêncio que, dia após dia, foi dissipando a expectativa pela ausência de António.
No primeiro dia de Setembro a manhã estalou de chuva em Timor. Ainda mal adaptado ao fuso horário, António teve de esperar pela abertura dos serviços em que ia entregar os documentos que o admitiam como voluntário na missão internacional. Saboreando a chuva que do cabelo encharcado lhe escorria pelo pescoço, recolheu-se na ombreira. Alargou a gabardina e protegido por ela releu pela última vez os papeis que na véspera preenchera. O formulário de inscrição terminava com um quesito sobre a duração prevista para a estada. A resposta manuscrita era peremptória: “permanência definitiva”.