À Poesia
Ó boa lembrança em que me esqueço da dor
Insónia feliz na tortura em que adormeço
Quando tudo se foi és seguro regresso
Aonde o ser vencido me faz vencedor
Liberta voz onde a opressão desemboca
No amargo silêncio és meiga canção
No feroz duvidar mansa revelação
De que a vida é magia e o sonho se toca
És mar de água doce na deriva sem norte
Bússola e leme na maré que se agita
Farol do rumo certo na rota perdida
És enfim o sentido da diferente sorte
E na força de calar o que em ti se grita
Sucumbir é só dobrar o cabo da vida
Só
Morre-me no silêncio esta canção
Resolve-se-me no ar este abraço
Esvai-se-me fugaz este cansaço
Perde-se-me este sorriso no chão
Cingia em tal furor ainda agora
No ingénuo imaginário deste peito
Um êxtase afinal de tanto feito
Que em nada se me fez esta demora
Prostrado aquele riso que inventei
Fui-me ou nasço do nada que ficou?
Já tão pouco interessa se o sei!
Nada-muda a balada que entoei
Que importa ser vazio o que me dou
Se a ele já inteiro me entreguei?
Saudade
Saudade não é dor é retempero
É dom de se guardar o que se foi
É força do que a vida nos corrói
É seguro alcançar no desespero
É sem ter mais somar e dar igual
É o multiplicar na subtracção
É resto da perfeita divisão
Falha infalível na prova real
É gerúndio no modo conjuntivo
É futuro no presente imperfeito
É o infinito ser imperativo
É calor na invernia furtivo
É rio seco em transbordo do leito
É pelas nuvens vadiar o cativo
Tempo
Prazo da vida vertigem da morte
Marcha intocável que a tudo entorpece
Vórtice em que a matéria se esvanece
Paradoxo de o destino ser sorte
Se és de amar mal chegando já te vais
Passas no momento paras na hora
Fazes-te instante espera e demora
E na saudade és sempre o nunca mais
Pressa do fim no vagar do começo
Tarde és avanço e cedo regresso
Ao nada em que culminas por sucesso
Pudesse a tua fúria ensandecer
Esta lúcida impotência de me ver
A ter-te horror só por já te não ter
Tudo
És na noite agitada o suave adormecer
No amanhecer abúlico és nova esperança
No dia tormentoso trazes a bonança
Na calma do regresso és o que faz correr
És corpo fresco no calor da excitação
Espírito estimulante que faz descansar
Real em pleno sonho depois do acordar
Imaginário além da imaginação
Na escaldante dor que o coração arrefece
És fresco-morno, fundente gelo que aquece
Memória do sentir que toda a dor se esquece
Coerência na contradição é o que enfim
Faz esta saudade de quem está sempre em mim
Meta certa à partida, princípio no fim
Sentir
Quero tanto saber como sentir!
É-me urgente sentir que o saber
Dá sentido ao humano padecer
De quem quer o insensível intuir
Fruí com ligeireza o sentimento
Tive sonhos, quimeras – tive o mundo
Elevei-me a um sentir mais profundo
E subir foi cair no sofrimento
Por sentir o saber fez-me sofrer
Sem sentir sofri por não perceber
Porque queria saber nada sentir
Sinto enfim que não sei já discernir
Se o que quero é sentir e compreender
Ou deixar de sentir sem o saber
Traição
É menos que calar – é não dizer
Pior que falar mal – é omitir
Mais duro que ser rude – é não sentir
No bem que se não faz o malfazer
É mascarar-se o feio de beleza
E o frígido passar por sensual
Amar que só a fingir é real
Nas manhas de encantar a quem despreza
É forjar armistício desleal
Abraçar p’ra apunhalar – simular
Que se quer vivo o que se faz morrer
É o traidor trair-se sem querer
Por querer tudo mas se contentar
Em ser sem ser – e ser nada afinal
Cidadão
Ó ousadia de ouvir e duvidar
(Oh! verdade transvertida em obsessão...)
Desvaneceste o real na ilusão
De urdir o sonho por sobre o despertar
Ó traidora tentação de desistir
Infectada mazela do desencanto
Faz-te grito de revolta em vez de pranto
Que se arrisca quem tolera a transigir
Haja forças para perder sem claudicar
E coragem para cair e prosseguir
E amor para morrer e renascer
A quem espera dê-se a ordem de avançar
Em quem teima cresçam ganas de insistir
Que lutar é o futuro a irromper!
Vallegrande
(ao Che)
No corpo já sem armas que aqui jaz
Despojo de alma e sangue atormentados
Selado o grito e os sonhos calmados
Assombra-se inquieta a eterna paz
Foi fome de honra e sede de pão
O que esta alma inane alimentou
E soberba a cobardia que emboscou
Com tal raiva tão manso coração
Fresco alvor que em tão negra vida ardeu!
Desta matéria que fria fenece
Que halo doce e quente remanesce!
Oh! Certeza que dói mas enternece
De que se a Vida outra vida lhe desse
Havia de o achar no que o perdeu!
Pai
Não me perdoes, Pai – que ingrato sou!
Para remir a soberba em que me perco
Só por pecos garatujos me acerco
De quem por vida o verbo me doou
Tanto cantei o amor sem perceber
Que em todos os lugares e momentos
Jamais eu disse mais que os sentimentos
Que o teu sentir me deu a conhecer
Dos mundos, vidas, almas que me deste
Recusou-se a abrir mão esta memória
Temendo que ao usá-los os perdesse
Nada mais cantaria se tivesse
Engenho para plagiar a história
Que sem papel nem pena escreveste
Imperativo
Olho os teus olhos como quem se vê
Olhado como nunca lobrigou
Mas ver-me-ia sem ser o que sou
Se visse meu um olhar que meu não é
Veria em teu olhar tudo o que anseio
Ver, mas abro os olhos e resisto
Que é outro quem por teus olhos é visto
Como sem ver se vê meu devaneio
Talvez com esse olhar nunca lhe dês
Vontade da cegueira com que eu quis
Que visses este olhar que em mim não lês
Mas se é nos olhos dele que revês
O olhar claro que te faz feliz
Benditos sejam os olhos com que o vês
Saudades
Saudade...
Saudade nova
que não a sabia assim
Saudade antiga
que cresceu já tanto em mim
Saudade pequena
que há tão pouco aqui não estás
Saudade grande
que é imensa a dor que me traz
Saudade forte
que é mais que paixão e maior
Saudade meiga
que nunca é rude o amor
Saudade ruim
que é de não estares aqui
Saudade boa
porque é saudade de ti
Ilusão
Se nos papeis que te costumo escrever
Te habituaste a ouvir canções de alegria
É por bater teu coração igual ao meu
Mas o trovador jamais terei sido eu
É este Sol que do meu peito em cada dia
Se faz manhã que cruzou a noite a crescer
Mas se algum dia me faltar esse calor
Podes nos meus versos achar discretamente
Resto ou sinal de alguma lágrima vertida
Não a desprezes nem a tomes por perdida
Será da minha prece a Deus - e veemente
Para aliviar qualquer que seja a tua dor
Sem a chama que só o teu amor lhes dá
Hão-de falar-te ainda uns olhos baços
E eles te dirão que não é mais que ilusão
Estar morto o meu despedaçado coração...
Reune e guarda um a um os seus pedaços
Que ele por ti inteiro e sempre viverá
Negação
Dúvidas pra quê se nunca são desfeitas ?
Certezas quem as tem firmes e perfeitas ?
Confiança é renunciar a pensar
Suspeita é perder o dom de acreditar
Acção faz correr o risco de falhar
Omissão é ser capaz e abdicar
Entusiasmo faz ser-se impertinente
Indiferença é frieza indolente
Arrependimento tem quem quis ousar
Remorso é sentir que se deixou andar
Orgulho é não ter força pra ceder
Humildade é crer em si sem o dizer
Intolerância é falar e não ouvir
Transigência é querer e desistir
Arrogância vem da fraca convicção
Servilismo é nem procurar a razão
Egoísta querer é tudo ver frustrado
Generoso amar é nunca ser amado
Ódio nasce em quem só pra si quer o bem
Paixão afecta os que assim sentem também
Juventude é ser triunfo sem troféu
Velhice é ter pavor de chegar ao céu
Viver é puxar pelo fim sempre a correr
Morrer é perder o que se ousou fazer
Epitáfio
No corpo já sem homem que aqui jaz
Despojo de alma e sangue atormentados
Selado o sonho e os gritos calmados
Refulge – vã conquista! – a imensa paz
Foi honra, medo ou raiva da traição
O que esta alma inane alimentou?
Paixão ou desengano o que esmagou
Com tal força tão débil coração?
Fresco alvor que em tão negra vida ardeu!
Desta matéria que fria fenece
Que halo doce e quente remanesce!
Oh! Certeza que dói mas enternece
De que se a Vida outra vida lhe desse
Havia de o achar no que o perdeu!